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Jornalismo

Liberou geral!

Aconteceu aquilo que a gente achava que, mais dia, menos dia, iria acabar acontecendo: as grandes empresas jornalísticas conseguiram, no Supremo Tribunal Federal, a desregulamentação da profissão de jornalista.

A partir da decisão de hoje, a atividade jornalística poderá ser exercida por qualquer pessoa. Não há necessidade sequer de primeiro grau completo. Também não existe mais a necessidade de registro no Ministério do Trabalho.

E, naturalmente, acabou a figura do “exercício irregular da profissão” em jornalismo, até porque a atividade jornalística não pode, a rigor, ser considerada uma profissão. Pode-se exercer profissionalmente o jornalismo e até seguir uma carreira jornalística, mas sem qualquer regulamentação.

Foram oito votos a favor da queda do diploma e um (do Ministro Marco Aurélio Mello) contra. A maioria achou que o item do Decreto-Lei que continha a exigência do diploma, afrontava a Constituição de 1988, no que diz respeito à liberdade de expressão e informação.

IGNORÂNCIA GERAL

Assisti atentamente à sessão do STF e fiquei espantado com a falta de conhecimento que advogados e ministros têm da nossa profissão. Chegaram a citar, como exemplos de “jornalistas” que fizeram sucesso e foram brilhantes sem diploma, literatos como Carlos Drummond de Andrade, Machado Assis, Vinícius de Moraes. Como se publicar crônicas, poemas e outros textos em jornal fosse suficiente para caracterizar um jornalista.

A maioria não faz idéia do que é colocar um jornal na rua todos os dias, sequer imagina como se produz, edita e coloca no ar um noticiário de TV.

Chegaram à conclusão que os advogados, os médicos e os engenheiros precisam ter conhecimentos específicos para exercer suas atividades, mas o jornalismo é apenas uma atividade intelectual, para a qual não há necessidade de qualquer exigência legal. Os empregadores que exijam, conforme suas conveniências, a qualificação que acharem necessária. Mas não cabe ao Estado se meter nessa seara. É a tal de auto-regulação.

A VINGANÇA

Ficou-se sabendo, também, que todo esse bafafá contra o diploma começou porque o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, há algumas décadas, tinha pegado no pé de dois jornalistas sem diploma, que ocupavam cargos importantes na Folha de São Paulo.

Vingaram-se em grande estilo da “perseguição”: derrubaram, ao final e ao cabo (e talvez sem querer inicialmente), a profissão que foram flagrados exercendo irregularmente. E transformaram um caso particular num evento nacional. Fantástico.

Ah, como o Decreto-Lei que regulamentava a profissão tinha sido assinado durante a ditadura, por uma junta militar, a coisa foi muito facilitada: virou entulho autoritário varrido pelos novos ares democráticos.

E AGORA?

Bom, existem duas visões que podemos adotar, a otimista e a pessimista. A pessimista tentará levar-nos a crer que seremos informados por imbecis (como se fosse possível piorar ainda mais o nível).

A otimista, que é a minha preferida, levará, a médio prazo, a uma melhora relativa da situação. Em primeiro lugar, espera-se que as faculdades caça-níqueis fiquem sem clientes e fechem seus péssimos cursos de Jornalismo.

Em segundo lugar, acho que nenhum empresário seja tão burro que prefira contratar um profissional sem qualquer preparo em vez de um que saiba fazer o serviço. E o faça direito. Haverá quem encha a empresa com parentes e amigos, mas quando começar a perder dinheiro, tratará de repensar o caso.

Nos Estados Unidos o diploma não é obrigatório para exercer o jornalismo. Mas as pesquisas mostram que a maioria das vagas, nos principais veículos, é ocupada por gente que saiu das escolas de jornalismo. Claro, é muito caro, para as empresas, treinar seu pessoal. É preferível pegar alguém que já esteja pronto. Ou quase pronto.

PERPLEXIDADE

Como o jornalismo foi regulamentado há 40 anos, esta desregulamentação súbita deixa uma certa perplexidade no ar. Mas acredito que em pouco tempo as coisas entrarão nos eixos e o significado dessa nova fase acabe sendo estudado, explicado e entendido.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Tio, sobre a sua visão pessimista, eu sempre digo que nunca está tão ruim que não possa piorar.

    Posted by Wilmor Henrique | junho 17, 2009, 21:39
  2. Excelente decisão do STF.
    Reserva de mercado serve apenas para proteger incompetentes.
    Minha profissão (Analista de Sistemas) nunca teve regulamentação, qualquer um desde que seja competente pode exerce-la pois o mercado se encarrega de selecioná-las.
    E nem por isso que as pessoas deixam estudar os cursos dessa área.

    Posted by Daniel | junho 17, 2009, 22:09
  3. Cesar! O que eles alegaram? Que não havia potencialidade pelo princípio da potencialidade? Agora eles tem que liberar concurso pra juiz federal, promotor, delegado, etc, para primeiro grau completo, qualquer jumento pode chegar la e falar que crime pequeno pra valer como crime tem que ter potencialidade!
    O que esperar de um país governado por semi analbeto!
    Agora é o pessoal atacar de curandeiro (pajé), cobrar consulta, virar prático dentário, optmetrista receitar óculos, pedreiro projetar viaduto (é só pegar o do dário que fez o viaduto de capoeiras e o do funil), estamos virados numa zona! Um dia que isto virar uma praça de guerra como está o Irã, meio milhao morrer em guerra e paredão, vai ser tarde demais! Vivemos na casa da mãe Joana! Ditadura pelo menos aqui em Santa Catarina já vivemos! A ditadura do dinheiro! Uma impensa vendida que se adula e não coloca o dedo na ferida!
    Abraço a todos e que deus nos proteja, pq está ficando mto feio!

    Posted by Marcelo | junho 17, 2009, 22:44
  4. Ave, César!
    Lendo teu comentário e as duas alternativas que apresentas, a pessimita e a otimista, ao futuro da tua profissão, começo a dar razão ao sarnento, quando diz que temos sangue de baratas. O momento é de indignação e não de conjecturas, caro César! Eu penso mesmo é que, para essa raça que se apossou do poder (ou dos poderes) o que interessa mesmo é a desinformação , a não–informação ou a informação desqualificada. Aí fica bem mais fácil esconder, atrás das informações desencontradas, as falcatruas que jornalistas qualificados têm ajudado a escancarar aos olhos da nação, muitas vezes contrariando, até mesmo, interesses maiores das grandes empresas de comunicação, comprometidas com os bastidores do poder. Se todos são iguais perante a lei, por certo, também não haverá necessidade de diploma para médicos, engenheiros, etc… e muito menos para o direito e para o STF e os julgadores e aplicadores da lei. Aliás, para que servem leis que apontem direções, se cada um tem o seu próprio bolso como destino e direção de suas “jurisprudências”?!
    esta foi, certamente, uma (juris)prudente decisão dos senhores ministros, pois: farinha pouca, meu pirão primeiro!

    Posted by waltamir | junho 17, 2009, 22:48
  5. Tem goleiro e demais jogadores da retaguarda de uma equipe de futebol que fazem defesas espetaculares. Não poucas vezes fazem homéricas cagadas. Adivogados também.
    No ataque, comparando com adivogados de acusação, mais cagadas ainda.
    Seríam os “nobres colegas” obrigados a portarem “depromas”, já que é do conhecimento “de todos” que, tanto as faculdades de jornalismo e as de “dereito”,deixam a desejar.
    Abaixo os depromas prá devogados.
    Strix.

    Posted by Strix | junho 17, 2009, 23:10
  6. Como já postei sobre o canudo, vou deixar apenas outro comentário.
    Sobre o que você diz, “em pouco tempo as coisas entrarão nos eixos e o significado dessa nova fase acabe sendo estudado, explicado e entendido”
    Sim, diversos formandos em Jornalismo que fizeram o curso em barzinhos, boates, farras, trotes, festas e tiraram seu diploma e nunca tiveram uma atividade numa redação como eu tive na extinta revista Manchete. Estarão descartados do mercados e passaram para o mercado informal.
    E outros que se formaram em outras áreas e autodidatas realmente competentes, se estabilizarão e galgarão seu verdadeiro sucesso.
    Aí sim veremos uma disputa válida, de quem é competente se estabelece e quem não é se arremesse para uma posição que seja competente.
    Abraços
    Otavio Di Mello

    Posted by Otavio Di Mello | junho 17, 2009, 23:55
  7. Com o jornalismo aconteceu isso, já com relação ao Direito, eles não derrubam o tal Exame da OAB, que é inconstitucional.

    Posted by Ribeiro | junho 18, 2009, 07:21
  8. O chato da coisa foi ainda ter que ouvir do ministro do Supremo que o Jornalismo é um tipo de literatura, uma arte. Que não carece de técnicas científicas (precisão, comprovação, talvez?). E um julgamento como o que ele emitiu, depois de tanto (?) estudo do caso, foi científico ou foi literatura, arte? Acho que pra falar uma asneira dessas não é preciso formação superior também.

    Posted by Marlos | junho 18, 2009, 08:24
  9. Somos “véios”, intolerantes, ranzinzas, éticos. Ah, temos diploma. Portanto, incomodamos demais, abração. Medaglia

    Posted by Mário Medaglia | junho 18, 2009, 08:26
  10. Peraí! Tudo bem que a obrigatoriedade do diploma caiu. Agora vir aqui falar dos jornalistas diplomados como se da noite pro dia não fôssemos mais nada, aí já é demais, minha gente. Profissional de merda tem em qualquer área (quantos advogados, médicos, engenheiros, etc.). Que a qualidade da imprensa hoje é questionável, também concordo. Mas sou formado em jornalismo com muito orgulho, batalhei muito pra conquistar esse diploma e quero respeito! É a profissão que eu escolhi e vou defender sempre! Falar e escrever todo mundo aprende desde pequeno, acho que é isso que torna os corneteiros tão arrogantes quando opinam sobre nossa profissão. Mas como o César mesmo disse, assim como os juízes julgadores mal sabiam o que é a rotina do trabalho jornalístico, vejo que alguns comentaristas de plantão também não sabem. Tenho certeza que profissionais de outras áreas podem exercer com eficiência a profissão de jornalista, mas abomino os “boca-abertas” que se acham muitos sabidos pra querer desmoralizar a luta de toda uma classe para ter o seu direito à regulamentação. Falem o que for, mas meu diploma vale muito sim e lamento pelos colegas que se deixam levar pela onda do momento e agora o renegam, dando de ombros, cuspindo no prato que comeram. Tenho certeza que todos os colegas jornalistas um dia já sentiram orgulho, como eu ainda sinto, deste diploma, com ou sem moldura de bandeja de cozinha.

    Posted by Rafael Pereira Cardoso | junho 18, 2009, 09:34
  11. espero q a visão otimista se confirme, do jeito que está o diploma já não faz diferença… ao menos as instituições de ensino terão que investir mais para continuar… Gostaria de linkar seu artigo ao meu blog, importa-se?

    Posted by Lu Ribeiro | junho 18, 2009, 11:56
  12. Lu: não, não me importo.

    Posted by Cesar Valente | junho 18, 2009, 12:18
  13. Concordo com você, Cesar: o argumento de que Drummond e Machado escreviam em jornais é simplista e revela desconhecimento para apreciar a causa … há uma enorme diferença entre “produzir” um jornal e “escrever” no jornal.

    Posted by Pedro Lemos | junho 18, 2009, 18:50
  14. [...] existe esperança, como apontou Cezar Valente em seu post, mas algumas coisas ruins, nós que ainda somos estudantes, deixamos acontecer. Não tenho a [...]

    Posted by Passada a raiva inicial… « PROTESTE CONTRA O FIM DA EXIGÊNCIA DO DIPLOMA DE JORNALISMO | junho 23, 2009, 16:17
  15. [...] Liberou geral! [...]

    Posted by Mais sobre o diploma « Andei pensando | junho 24, 2009, 11:58

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