Contei ontem a história do meu sapato Opananken, que mesmo depois de anos de uso ganhou sola nova da fábrica (em “Confissões de um consumidor bem atendido”). Nos comentários, muita gente se espantou com meu empenho em continuar usando um sapato depois de tanto tempo. Me chamaram de mão-de-vaca e outros adjetivos carinhosos.
E aí comecei a ver que, de fato, ninguém mais está preocupado com a durabilidade das coisas. Que, não por acaso, não são feitas para durar. São feitas pra se acabar em pouco tempo. E, ao que parece, estamos todos nos acostumando com isso de “usar e jogar fora”. Donde ser mesmo espantosa a história que contei.
Mas não deveria.
Aprendi desde cedo a valorizar a durabilidade. Provavelmente as agruras do tempo da guerra ainda estavam claras na mente dos meus pais, quando me tiveram, em 1953. Ou então eles aprenderam também com seus pais e parentes. Não sei se esse comportamento se enquadra na definição clássica de pão-durismo, porque, afinal, as coisas boas, que duram bastante, que são feitas com material de primeira, custam caro.
Meu pai teve um sedan Ford 1946, norte-americano, que comprou novo e só trocou em 1962, acho. Por um fusca. E, a partir daí, nunca mais nenhum carro durou tanto. Tinhamos um piano alemão, da década de 20, que só foi desativado depois da morte de meu pai, em 1990. Sem o olhar cuidadoso do dono, que o fez soar todos os dias, por muitas décadas, em pouco tempo o piano entristeceu, encheu-se de cupins e também morreu.
Minha lua-de-mel coma Lúcia, em 1977, foi no Uruguai. País que, como sabem todos os que gostam de sapatos duráveis, fabrica(va?) o insuperável Galarate. Com um solado indestrutível e um design muito bonito, foi minha principal aquisição em Montevideo. Ficou em uso uns dez anos, pelo menos. Foi aposentado graças aos meus descuidos com a manutenção do couro (em outras palavras, preguiça de engraxar, ou mandar engraxar, os sapatos).
Ah, o casamento continua. Nem foi preciso colocar meia-sola.
Claro que, nisso de usar durante muito tempo as coisas, a gente passa por momentos esquisitos. Teve um natal inesquecível, em Tubarão, no começo dos anos 60, em que ganhei a minha própria bicicletinha… reformada, pintada, em estado de nova. Não era bem o presente que um menino com menos de dez anos gostaria de ganhar, mas… A bem da verdade, no natal seguinte ganhei uma bicicleta nova e enorme (aro 26), com a qual cheguei à década de 70, já em Florianópolis. De bicicleta, eu e o José Alfredo Müller (ele com uma aro 22 adequada à sua estatura, hehehe) desbravamos o Estreito, do Morro do Geraldo ao Balneário e vice-versa, passando por todas as adjacências.
Até no computador, que é uma coisa onde a obsolescência programada parece regra imutável, tenho conseguido uma vida útil estendida. A minha máquina atual, um Dell Dimension, já me serve há uns cinco anos. Configurada no capricho quando a comprei, mantém-se ágil, rápida e eficiente e funciona perfeitamente mesmo depois do final da garantia de três anos. Talvez precise ser trocada agora, porque pretendo dedicar-me um pouco mais à edição de filmes, o que exige mais processamento e armazenamento do que esse veterano é capaz de fornecer ou suportar.
E quanto a falar com os fabricantes, reclamar e ver que tipo de atendimento eles podem dar, faço isso há muito tempo. Uma vez, na Zona Franca de Manaus (começo da década de 80), comprei uma caixa de chocolates suíços Suchard. Quando abri, depois de voltar a Brasília, onde morava, notei que estava deteriorado, mofado, uma porcaria. Mandei para o fabricante, com uma carta, explicando o caso e as circunstâncias da compra.
Recebi um pedido de desculpas, acompanhado por uma nova caixa de chocolates. Em perfeito estado.
Logo no começo da revista Empreendedor, a gente usava, para mandar os arquivos para a gráfica, em Joinville, um discão regravável que acho que era o pai do Zip drive (que, por sua vez, é avô do cd). Comprei o gravador nos Estados Unidos, pelo correio. E deu defeito. Escrevi para o fornecedor explicando os sintomas. Pouco tempo depois me ligaram, pediram pra fazer alguns testes pra confirmar o defeito. E a seguir me enviaram um novo.
Em 2005, na França, comprei um cartão de memória SanDisk de 1GB, para minha câmera fotográfica. Depois de uns dois anos, travou. Não permitia formatar, não gravava, tava pifado. Mandei para o endereço que o fabricante recomendou, nos Estados Unidos, e dali a algumas semanas recebi um cartão novo, perfeitinho. E, o que é mais impressionante, neste caso: só paguei a remessa. A devolução, vocês sabem, é coisa complicada, com os impostos do tal custo Brasil, que somam mais do que o valor que eu paguei pelo cartão. Pois o fabricante arcou com essa despesa toda.
A escolha do fornecedor, do tipo de produto, a procura pela qualidade da matéria prima e da manufatura, geralmente toma tempo, exige atenção, pesquisa e custa inicialmente mais caro do que outras soluções. Mas, depois, ajuda a facilitar a vida da gente. Seja por tratar com pessoas de bem e organizações que valorizam o seu bom nome, seja por usufruir de um produto que corresponde às suas expectativas e atende suas necessidades. O que parece pouco, mas, num mundo de descartáveis e de coisas feitas nas coxas, é tudo de bom.
César, agora entendi. Ao menos prá vc, a jurisprudência já é mansa e pacífica. “A César o que é de César”, principalmente quando ele é um Valente. Assim, até eu.
Ô César, computador, pen drive, bicicleta, tudo bem. Tem que durar mesmo.
Agora, um sapato por 9 anos…tenha a santa paciência.
Vou virar cliente dessa Opanaken. Eles merecem.
Parabéns César, tua atitude é louvável e muito educativa, merecias uma entrevista no Fantástico.
Suzana
P.S. – Hoje estou usando um blusão de lã com 19 (dezenove) anos e acho que vai durar muito ainda.
Se um sapato de couro nao durar no mínimo 9 anos, fecha a fábrica!
Garanto que a maioria que troca de sapato em pouco tempo, ou é por falta de cuidado, ou então por causa da moda.
Lembro-me de um cortuno que eu tinha, durou uns 10 anos também, foram pelo menos 4 troca de sola e me servia muito bem, só passei pra frente porque eu depois de um tempo fiquei descuidado e o couro estragou.
Alguém pode falar dos empregos perdidos nas indústrias de sapatos, devo dizer que o dinheiro ecnomizado com os calçados é gasto em algum outro segmento, pois na poupança(uepa!) não tem um tostão.
Em tua homenagem vou usar minha capa de chuva de Brim IODICE com mais de 20 anos de uso.
Se tiver frio meu casaco de lã LA COST com a mesma idade
Tio César,
Este Amilton Alexandre está muito fashion!
Como ele mesmo diria, “fashion pra cara*!”
Fashion mesmo é a camiseta do Blog Tijoladas.
Garanto 1 ano de uso com 4 utilizações por semana
R$ 20,00
Reservas no
http://www.tijoladas.com.br
Beleza pura o seu texto. Antes dos cidadãos virarem consumidores, comprar não era a meta, mas um meio para estar bem na vida. Sapatos duravam – existia sapateiros que faziam seu tempo de vida aumentar. Consertava-se ferro de passar… Aproveitavam-se mais as coisas, exauria-se menos a natureza e produzíamos infinitamente menos lixo.
Hoje, a compulsão pelo consumo faz com que se compre constantemente coisas que não se precisa, pelo simples frisson de ter algo novo e enganar momentaneamente a depressão e a falta de sentido da vida. Viver é comprar, parece ser o lema atual. Ainda bem que existem muitas pessoas, como vc, que valorizam a durabilidade e a reciclagem. Estão aí também os jovens permacultores, que carregam a bandeira do idealismo nos tempos shoppings atuais.
Prezado professor e amigo. Preciso de sua ajuda. Meu monitor Phillips foi entregue na assistência técnica em 10 de dezembro de 2008. Isso mesmo, há exatos 7 MESES e 6 DIAS. Há um mës me ofereceram um similar. Passado meio ano, a recusa pareceu-me justa. Pedi o último modelo, a exemplo daquele que comprara e que pifara 6 meses depois do negócio – “Em uma semana vamos estar dando uma resposta, senhor”. Estou ainda no aguardo, acho que deveria ter comprado um monitor Opananken, tal qual a marca de seus sapatos.