Por que tanta pressão para que a lista com os nomes dos passageiros do vôo desaparecido seja divulgada? Quem tinha parentes ou amigos no vôo já sabe se eles estavam ou não a bordo. E se eu não tenho nem um, nem outro, por que precisaria saber o nome dos que provavelmente morreram no acidente?
Os motivos dessa curiosidade têm sido estudados há décadas (séculos?) e os resultados nunca são lisonjeiros para esta espécie que gosta tanto de ver a desgraça alheia. As vendas do Diarinho crescem quando há foto de cadáver na capa. Os leitores reclamam, escrevem cartas, mandam e-mails, quando o jornal fica muito tempo sem mostrar esse tipo de coisa. É impulso parecido com o prazer (sim, por que, tem outro nome?) que muita gente sente ao ler a lista das vítimas fatais de algum grande acidente. “Ah, é pra ver se tem algum conhecido” ou então pra ver se tem alguma “celebridade”. Não se preocupem. Os amigos e familiares das “celebridades” que estavam no avião já divulgaram seus nomes.
A lei francesa me parece muito razoável: a empresa envolvida no acidente não pode divulgar a lista dos mortos ou presumivelmente mortos. Só as famílias é que podem, se quiserem. Os que preferirem poderão preservar seu ente querido da curiosidade popular. É assim, em geral, nos falecimentos: a gente avisa amigos, parentes. Alguns colocam um anúncio no rádio. Outros no jornal. Algumas famílias preferem cerimônias discretas. Outras, ou porque o morto era muito conhecido, ou porque a família era grande, acabam virando eventos fúnebres de grande repercussão.
Mas quem não tem nada a ver com isso gosta de ler os obituários dos jornais (quando era uma prática comum, naquele tempo em que havia jornais) e adora uma listinha com nomes das vítimas de acidentes. Se tiver fotos, mais ainda.
Não é de estranhar, portanto, que já no dia seguinte ao desaparecimento do avião, tenha aparecido, nas caixas postais de muita gente, mais um daqueles golpes oportunistas. Simulando ser um e-mail do site de notícias G1 (da Globo), oferecia “imagens de objetos e vítimas encontradas no mar”. Os curiosos, os doentes de curiosidade, que clicassem nos links, abririam seus computadores para instalação daqueles programas que roubam senhas bancárias e outras informações e que reenviam e-mails maliciosos.
Aposto que, mesmo achando que era golpe, mesmo tendo quase certeza que era golpe (porque coisa exatamente igual acontece a cada grande desastre), muitos clicaram, esperando, quem sabe, alguma fotinho de cadáver boiando. E se ferraram. Viraram vítimas de espertalhões. Vítimas de sua própria curiosidade mórbida.
Bem feito.
ATUALIZAÇÃO DA TARDE
Só vi agora, no começo da tarde, que o Ilton Dellandréa, no Jus Sperniandi, tinha publicado, hoje cedo, uma nota sobre o mesmo assunto. E o que escrevi acima tem muitos pontos em comum com o que ele disse. Se eu tivesse visto antes, teria citado vários trechos, que complementam o que penso.
De celebridade, César, nessa lista do G1 só tinha, se é q se pode considerar assim, o Principe Pedro de Orleans e Bragança, 26 anos, Administrador e residente em Luxemburgo. Vários funcionários da Michelin tb estavam a bordo. Interessante q dois procuradores federais de Niterói, casaram-se no mesmo dia (30/05) e viajaram juntos pra lua-de-mel em Paris (com suas respectivas noivas, claro).
Que Deus os acolha.
Sobre a fixação pela tragédia alheia, acho que Susan Sontag, Diante da Dor dos Outros ( http://www.travessa.com.br/DIANTE_DA_DOR_DOS_OUTROS/artigo/80cf394f-5673-4e08-8a5f-e0f79ff51272 )pode ser interessante. Li também sobre o tema da sangria jornalística no Jornal Pessoal, paraense ( http://www.lucioflaviopinto.com.br/?p=847 ). Espero que goste. Abç.
Obrigadão, tio Cesar.
Realmente concordo com sua colocação, aliás, caiu, morreram todos já sabemos e não interessa mais, só aos herdeiros e amigos.
Vão ficar divulgando isto até um fato novo, como alguma falcatrua política aparecer.
Nem divulgo nada a respeito, o assunto está gasto.
Isto lembra as enchentes. Milhares de blogs e sites com as mesmas fotos e as mesmas notícias.
Parabéns, deixa eu ir que caiu o pinguim da minha geladeira. Abraços
É simples entender porque há tanto interesse nessas listas de mortos, nesses detalhes do acidente, e tal. Essa morbidez vem, acho eu – ou pelo menos é isso que se dá em mim –, proque é nesses momentos que todos lembramos que estamos vivos e que isso não é pra sempre. Que vamos pro pau também, seja de uma forma cruel como essa, seja dormindo em nossas camas. Além disso, começamos a viajar descontroladamente, a pensar que nada pode ser mais horrível do que imaginar a mãe, que carregava o único bebê a bordo, descobrir que essa criança – na própria pessoa ela nem pensou, tenho certeza – em alguns segundos iria se explodir em algum lugar perdido do oceano.
Caras, eu não me conformo com essas coisas. Me dá uma tristeza… Também é porque eu fico aqui imaginando, né. Mas é cruel demais, pataquebarel…
as pessoas conferem tais listas para ver se encontram o nome delas lá!