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Caraminholas

Nós e nossas tragédias

A morte de 228 pessoas de uma vez só, em um acidente aéreo, é desgraça que nos enche a todos de dor. Mas, mesmo nesse momento grave, não podemos esquecer que as estradas brasileiras produzem, ao tenebroso ritmo médio de 35 mortes por dia, um número absurdo de vítimas. Num mês, se não ocorrer algum feriadão especialmente trágico, são mais de mil mortos. E isso se mantém todos os meses. Treze mil morrem todos os anos no local dos acidentes. A estatística dos feridos que morrem em decorrência dos acidentes, dias ou meses depois, dobra esse número.

Reportagem de O Globo, de 2006, já dizia que: “A cada dois anos, o Brasil perde, vítimas de acidentes no trânsito, a mesma quantidade de pessoas que os americanos perderam em quase 12 anos de guerra no Vietnã”

É natural que nos emocionemos com desastres de avião. Tem-se a impressão que as vítimas não tiveram chance de defesa, a impossibilidade de sobrevivência é um dado cruel. E o número de mortes de uma só vez é chocante (e gera notícias de impacto nos veículos de comunicação).

Mas, cá entre nós: morrem por mês, em acidentes nas estradas brasileiras, o equivalente a três aviões intercontinentais lotados. “Caem” três aviões a cada 30 dias, todos os meses do ano e com tal regularidade, que acabamos tratando disso como se fosse inevitável. Como se fosse uma catástrofe incorporada à natureza humana.

Comovem-nos as lágrimas das famílias das vítimas deste acidente da Air France. Mas já não nos abalam as lágrimas das famílias das vítimas da tragédia terrestre. Por quê?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. “Caem” três aviões a cada 30 dias, todos os meses do ano”? Não sabia disso não. Pôxa, com tanta gente RUINZINHA dando a volta ao mundo por aí com dinheiro público…

    Posted by Beto | junho 1, 2009, 15:04
  2. Putz, será que não expliquei direito? Não caem tantos aviões, Beto, avião é um dos meios de transporte mais seguros. Mas o número de mortos nas estradas brasileiras equivale à lotação de pelo menos três aviões. Foi só uma comparação, para dar uma idéia do tamanho da tragédia terrestre.

    Posted by Cesar Valente | junho 1, 2009, 15:16
  3. César, aquilo que acontece diariamente em frente às nossas “fuças” acaba tornando-se rotina, o que é um passo para que o sentimento de conformismo nos tome. Veja por exemplo os detentores de mandato eletivo, fazem de tudo todo o dia e todos os dias, mentem descaradamente à sociedade, são na maioria improbos, não estão nem aí para a causa pública, e sim às causas particulares, enfim, a sociedade acha normal condutas como nepotismo, uso de verba pública para pagamento de viagens, propinas em licitações, até mesmo as instituiçõs políticas que deveriam zelar pela res publica caem inertes às denúncias que dão nome e endereço dos “meliantes”…então não seria diferente o sentimento de indiferença quantos ao número de mortes no trânsito, eis que acidentes de trânsito é o que mais acontece, diferente do que ocorreu com um dos aviões da Air France nessa madrugada. Veja bem, não estou querendo desmerecer os acidentes de trânsito dos desastres aéreos, mas aquilo que acontece todos os dias não tem efeito impactante daquilo que acontece esporadicamente, e que de súbito leva de uma só vez a vida de mais de duas centenas de pessoas.
    Grande abraço.

    Posted by Juliano | junho 1, 2009, 15:48
  4. E quando cai um avião, ainda mais de linha internacional, sempre tem gente bem-sucedida, conhecida, de boa família, de futuro brilhante, com bons contatos, famosa, rica até. Quem morre nas estradas, com raras exceções, são os anônimos que não saem na revista Caras.

    Posted by Carlos Henrique | junho 2, 2009, 11:44
  5. Fazendo um adendo ao que disse Juliano, deve-se ter em mente que os acidentes de trânsito se devem primordialmente à imprudência aliada, na maioria das vezes, ao consumo de álcool e drogas, o que faz-nos concluir que a causa foi exclusivamente originada da irresponsabilidade humana. Já os acidentes aéreos chocam tanto porque a capacidade de escape individual é quase nula, quando não inexistente. No ar, estamos nas mãos dos simpáticos comandantes, aos quais dirigimos nosso sorriso de gratidão, após tocar no solo e abrir a cabine, diznedo “obrigado por voar TAM, GOL”; “Merci pour choisir Air France”, Danke scher für Lufthansa”, ou ainda, “thank you for choosing American Airlines… And so on…

    Posted by Imóvel | junho 2, 2009, 13:31

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