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Crônicas

Faça de conta que a casa é sua

Da série “ai que saudades que eu tenho…”

Capítulo de hoje: OS VIZINHOS

Hoje somos seres urbanos que vivem a poucos, pouquíssimos metros de pessoas de quem não sabemos o nome e com quem às vezes nem falamos ou cumprimentamos ao encontrar na rua. Tratamo-nos, de uma maneira geral, com o cuidado e a precaução que se deve ter diante de desconhecidos com algum nível de periculosidade.

Pois nessa chumichunga em que a vida das cidades se transformou, seria muito útil termos, pelo outro, a mesma consideração e deferência que tínhamos quando morávamos em algum sítio, na nossa vida pregressa rural.

Quem abria uma porteira e entrava sabia que devia, ao dono da casa e seus parentes, um respeitoso cumprimento e um claro pedido de licença para chegar, para se aproximar e para trocar dois dedos de prosa. Quem via um estranho se aproximando de sua casa sabia que devia ver se tinha água fresca na jarra, que era preciso acender o fogo e fazer um café. E em seguida responder com cortesia o pedido de licença e dizer, com estas ou outras palavras, que a casa é sua.

Um ritual como este, totalmente assentado nas melhores e mais valiosas normas da vida em sociedade, tornou-se impossível hoje. Justamente hoje, quando a cada três passos damos de cara com um cidadão ou cidadã que nunca vimos antes e com quem precisamos conviver. Justamente hoje, quando o espaço privado reduziu-se a dimensões minúsculas e estamos a todo momento expostos aos outros.

É muito chato escrever sobre esses grandes problemas da humanidade, porque vive dentro de cada cronista de terceira, como eu, um arrogante ditador de regras, que tudo sabe e para tudo tem conselhos e palpites. E nesses casos, a gente não consegue ver uma solução de possa ser resumida a duas linhas, um parágrafo, no encerramento de um papo qualquer. Não existem respostas simples para o que a gente precisa fazer, como a gente precisa agir, para tornar nossa vida menos pior.

Se eu abro a porta, o outro me rouba, se eu abro os braços o outro me esfaqueia, se eu sorrio o outro me dá um soco, se eu me escondo o outro me denuncia à Polícia como traficante, se eu ignoro tudo isso, acabo só e sem assunto e se eu presto atenção a isso, acabo paranóico. Eu e o outro temos que ocupar praticamente o mesmo espaço físico, mas não conseguimos conviver. E sempre achamos que a melhor solução é eliminar o estorvo. E o estorvo, claro, é sempre o outro.

Chega, que isso não é conversa pra meio de semana. Muito menos num dia assim, ensolarado, nítido, com os primeiros ares frios do outono… se pelo menos aquele vizinho desgraçado não estivesse enfumaçando, com a chaminé baixa da churrasqueira, as roupas no varal e me obrigando a manter as janelas fechadas…

Discussão

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  1. a chaminé do vizinho que é baixa ou a tua casa que é alta? escrevo sem provocação (juro!): antes de construir sua mansão, meu vizinho aterrou um metro e meio acima do nível da rua .. e agora reclama que nossa chaminé dá na janela da suíte dele .. mofas!

    :D

    Posted by Pedro | maio 19, 2009, 23:20
  2. Oi César, gostei demais dos teus comentários. Lembro-me da casa da minha avó que ficava na rua Esteves Junior e que nunca teve um portão ou a porta de entrada, fechados. Quem chegava, chamava e esperava uma resposta. Caso não aparecesse alguém, a visita simplesmente ia embora e voltava em outro dia. E teriamos muitos outros “causos” como este, mas aqui o dia também brilha e vou continuar a minha trilha. bjs

    Posted by Guta Orofino | maio 20, 2009, 10:06
  3. 19 de maio, dia desse post, meu filho fez 13 anos. Passei gripado os ultimos três dias, daquelas poderosas, com dor de cabeça e tosse (a gripe não deve ser suína, no máximo asinina). Não acessei um blog, uma página, alguma leitiura atrasada sendo posta em dia e um mínimo serviço possível (prazo é prazo). Lembro-me que desde os 6/7 anos de idade vinha do Estreito até o Catarinense (primeiro o Alferes Tiradentes da dona Olga Brasil)de ônubus, tranqüilo, sem bulling (é isso?), sem xaropisses modernas. Pois bem, no dia 18, segunda-feira, 4 (quatro) amigos do meu filho, em horários diferentes da mesma tarde e em circunstâncias diferentes foram ASSALTADOS por pequenos meliantes secundados por dois marginais maiores nas imediações do Catarinense, Menino Jesus, Pizza Hut e Emporium Bocaiuva. Uma linda tarde ensolarada de outono, ceu límpido, azul profundo, tranqüilo e portões cerrados, câmeras, alarmes visíveis e invisíveis, ttancas e cadeados. Phlóda, Tio Cesar, não é a fumaça do vizinho na minha janela, mas não saber quem é a pohha do vizinho que evola eflúvios na roupa do meu varal sem sequer pedir licença. E pior, o ventio sempre vem de lá…

    Posted by LesPaul | maio 21, 2009, 09:55

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