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Perigos da internet

Telefone sem fio sem fim

Pedro Valente, meu estudioso preferido das novas mídias, publicou nota no blog dele, em janeiro, comentando sobre um aspecto da comunicação pela internet, em que a informação vai sendo passada adiante e cada portador adiciona a ela alguma coisa. Exatamente como na brincadeira do telefone sem fio.

Ao somar isso (a reprodução infinita dos conteúdos), com a recente discussão sobre o direito de resposta, levantada pela queda da Lei de Imprensa, estamos diante de um problemão: como corrigir ou remendar uma informação inicial, que se espalha como vírus, sem levar em conta novas informações sobre o assunto? E, o que também é comum, depois que vários daqueles que reproduziram a informação inicial adicionaram, nem sempre com responsabilidade, algum outro dado, muitas vezes inverídico?

Caso prático aqui do blog: em janeiro, a partir de registros no Diário Oficial do Estado, falei na contratação da IBI Asia-Pacific pelo governo de SC para atrair turistas estrangeiros. Logo depois, publiquei outra nota onde mostrava que o endereço da empresa era um apartamento residencial em Blumenau e adicionava outras informações.

Nas notas, deixo algumas questões no ar e falo sobre as suspeitas que a situação toda levanta, sem contudo, chegar a alguma conclusão sobre a existência de algum ilícito.

Em fevereiro, o Ministério Público Estadual resolveu, a partir de uma das notas, abrir um inquérito civil. Esses procedimentos são em geral abertos sempre que existe algum indício de irregularidade, justamente para saber se a suspeita se confirma ou não. E até o momento o MPSC não se pronunciou a respeito.

Bom, a partir das minhas notas iniciais e da notícia do Ministério Público, as suspeitas sobre a IBI Asia-Pacific têm sido reproduzidas, em blogs e sites, como se já fossem coisas confirmadas. O fato do endereço da empresa ser num prédio residencial pode não significar nenhuma ilegalidade, mas, como quem conta um conto aumenta um ponto, já aparece como “denúncia do Cesar Valente”, dando a entender que eu tivesse confirmado uma irregularidade.

Tanto a empresa, como a Santur, estão tentando mostrar que, apesar das aparências iniciais, não houve nada errado e o serviço encomendado está sendo feito (para ler um relatório com o que já foi feito e o que está programado para 2009, em pdf, clique aqui). Parece que o Ministério Público já esteve na Santur levantando os dados e lá estão confiantes que a conclusão será pela regularidade de todos os procedimentos.

Eu pretendia voltar ao assunto quando o Ministério Público se pronunciasse, para fechar o caso. Mas a propagação da coisa, que preocupava inicialmente a IBI Asia-Pacific e a Santur, agora também me preocupa. O cuidado que todos temos que ter com o dinheiro público, que nos leva a ficar atentos e, no meu caso, a dar palpites sobre o que acho estranho aqui e ali, não deveria ser utilizado (sabe-se lá com que propósito, às vezes apenas para minar a concorrência ou difamar desafetos) como base para afirmações sem fundamento.

É verdade que falei primeiro no caso. Mas isto não significa que toda e qualquer ilação está liberada. Se alguém quiser acrescentar alguma coisa ao que eu disse, transformando uma suspeita numa acusação, precisa antes reunir provas.

Por incrível que possa parecer, tem gente que acha que, se alguma coisa (foto, música, texto) está na internet, não tem dono, pode ser copiado, reproduzido e alterado quando, como e onde quiser. Tenho a impressão que esse tipo de pensamento é que leva a esse processo complicado, de passar adiante não exatamente como estava antes. Geralmente piorando a situação.

A EMENDA E O SONETO

No dia seguinte à publicação da nota inicial, sobre a IBI-Asia, publiquei outra, com pelo menos duas correções importantes. No DOE estava que a contratação tinha se dado por dispensa de licitação. E houve licitação. Por causa dos sites interligados e nomes semelhantes, achei que IBI-Asia e IBI-Americas tinham alguma ligação. Me explicaram que não.

Pois bem, em alguns locais a nota inicial tem sido utilizada sem referência às correções. Este é um fato comum na internet: o cara chega na nota pelo Google ou alguma outra indicação e não pesquisa mais nada, para saber de desdobramentos adicionais. Aquela primeira coisa fica valendo, mesmo que depois tenha sido rediscutida ou até desmentida.

Tinha notado isso com outros casos e estava começando a adotar um procedimento interno, no blog, para tentar evitar essa distorção: colocar referências das notas seguintes no post inicial. Coisa que fiz hoje com as notas da IBI Asia-Pacific, consolidando, em cada nota, os desdobramentos. Assim, quando alguém abrir a nota inicial, verá que há outras notas sobre o mesmo assunto.

Isso terá alguma eficácia para aqueles que usam responsavelmente a internet e têm cuidado com as informações que daqui retiram. Mas os mal intencionados continuarão a propagar as coisas da forma como bem entendem e segundo seus propósitos, sejam eles quais forem.

ENXUGAR GELO

Tentar conter essa disseminação maliciosa de informações equivale ao esforço de manter enxuta uma grande barra de gelo no calor tropical. Transcrevo a seguir o e-mail que a IBI Asia-Pacific enviou para um dos sites que republicou o caso:

“a) Sobre a Licitação: A empresa IBI Asia-Pacific é sim a empresa licitada pela Santur para a execução do Programa de Atração de Turistas Norte-americanos e Portugueses. A licitação foi realizada no dia 18 de dezembro de 2008 (edital 038/2008) e o nosso contrato é de dois anos (2009-2010). O artigo do jornalista Cesar Valente em janeiro deste ano se sustentou numa informação equívoca publicada no Diário Oficial onde aparecia o contrato como “dispensado de licitação”. Após verificar este erro, o Cesar fez uma retificação em artigo posterior.

Para o seu conhecimento, a nossa empresa empresa é responsável pela:
a) realização de inteligência de mercado para identificar as operadoras e agências-chave nos mercados-alvo, visando apresentar o destino “Santa Catarina Incomparable”;
b) negociação do fechamento de pacotes, assim como definição de ações “co-op” de promoção e marketing com as mesmas;
c) capacitação de agentes de agências de viagens norte-americanas e portuguesas;
d) organização de Fam e Press Trips para Santa Catarina;
e) organização de Road Shows; e
f) participação em feiras e workshops (contratação, materiais promocionais, etc.).

Como parte do nosso trabalho, também preparamos o receptivo catarinense (hotéis, agências de viagens, guias, etc.) para o atendimento de qualidade dos turistas estrangeiros e assessoramos o Governo do Estado no que diz respeito às políticas de segmentação nos mercados-alvo. Hoje, os segmentos prioritários nos mesmos são: ecoturismo, turismo de negócios e turismo GLS.

Todo o processo licitatório, assim como os relatórios das ações no periodo 2007-2009 se encontram à disposição na SANTUR.

b) Sobre o IBI Americas: não existe nenhuma “coligação” do IBI Asia-Pacific com esta empresa, como o artigo posterior do Cesar Valente também explica. A semelhança do nome se deve ao fato que, no passado, houve intenção de trabalhar em parceria num programa de triangulação de negócios internacionais entre Santa Catarina, os Estados Unidos e o Sudeste Asiático chamado “Santa Trade”. Portanto, esta informação também não procede.

c) Sobre o endereço da empresa: O endereço da nossa consultoria está localizado em Blumenau, por ser a cidade natal de Joceli Marina Cardozo, blumenauense, sócia do IBI Asia-Pacific e a minha esposa. Devido ao fato de ser uma empresa familiar e de morarmos períodos no Brasil e períodos no Canadá, escolheu-se a cidade como sede pela proximidade à família da Joceli. O relacionamento que temos com o Secretário Gilmar Knaesel é estritamente profissional. A nossa empresa tem como filosofia não se envolver em política.

Acredito que a imprensa livre exerce um papel essencial para a manutenção de um sistema democrático saudável, ao promover o fluxo de informações e estimular a transparência. Mas, também pode ser um instrumento para denegrir injustamente a imagem de uma organização. É necessário verificar as fontes.”

Martin Desmaras
Director – IBI Asia-Pacific
Santa Catarina Tourism Promotion
North America and Portugal
Phone: + 55 (47) 9942-5679
Visit: www.santacatarina.travel

Tem um relatório das ações da empresa aqui, em pdf.

E DAÍ?

Vejam que tudo começou porque o contrato da empresa com o governo, segundo o Diário Oficial, tinha ocorrido por dispensa de licitação. Foi isso que, no início, despertou minha atenção. Mas, como temos visto ao longo de vários outros episódios, parece que a turma anda tratando de forma muito desleixada os registros que publica naquele períodico. E parece que, na base do tanto faz como tanto fez, a burocracia estatal acha que dá no mesmo publicar coisas com erros ou não.

O outro fato curioso, o endereço da empresa, também chamou a atenção do MPSC. Mas é, por enquanto, apenas isso: um fato curioso. É muito pouco para afirmar qualquer coisa. Sem adicionar dados concretos, frutos de alguma investigação séria, não tem como prolongar o assunto. Mas, na internet, essas ponderações não fazem muito sucesso: sempre aparece alguém que soma um fragmento descontextualizado de informação a muitos adjetivos e diz coisas definitivas sobre pessoas, empresas e coisas, sem se importar com o efeito que isso poderá causar.

Como resultado, quem mantenha uma posição crítica, mas procure fazer isso com alguma responsabilidade, acaba sendo confundido com aqueles que fazem coisa parecida, mas com total irresponsabilidade. Como se todos os que levantam os tapetes para ver se tem algo oculto e ousam mostram a nudez do rei fossem uns moleques criadores de caso, que não sabem o que dizem. Há, dentre nós, de fato, quem esteja a serviço de interesses menores, mas há muitos de nós que procuramos nos colocar a serviço da democracia e da verdade (ou, pelo menos da parte visível da verdade). E que não gostam nada dessa história de telefone sem fio que aumenta um conto a cada ponto.

Então, é ou não é um grande problema pra gente pensar enquanto o domingo termina com um desses céus absurdamente bonitos de maio?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Prezado Jornalista;

    Sobre sua nota “Telefone sem fio sem fim” informando que sua “denúncia” se deu por desleixo nas publicações oficiais no Diário Oficial do Estado, tenho a informar que jamais houve qualquer erro, como poderá ser verificado (para o bem da verdade), no DOESC de nº 18.532, pag. 56, do dia 22/01/2009.
    Lá esta o EXTRATO DE CONTRATO de nº 002/2009, sendo que nunca houve a realização e consequente publicação dessa tal Dispensa de Licitação citada. Mas como você mesmo diz, há quem esteja a serviço de interesses menores.

    Certo de sua atenção, subscrevo-me

    Sérgio Lehmkuhl
    Assessor Jurídico/SANTUR

    Em tempo: desculpe se mandei mais de uma vez, computador não é o meu forte.

    Posted by Sérgio Lehmkuhl | maio 11, 2009, 18:26
  2. Doutor Lehmkuhl, gostei de ver sua confiança em afirmar que “jamais houve qualquer erro” no Diário Oficial do Estado. Bom, como não estou “a serviço de interesses menores”, conforme sua bem humorada cartinha sugere, vou rever o registro no DOE e minha nota original, para ver se, de fato, houve um equívoco. Como eu não sou igual ao DOE e às vezes erro, se for o caso voltarei ao assunto.

    Posted by Cesar Valente | maio 11, 2009, 18:38

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