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Cursinhos do Tio Cesar

Engenharia de tráfego para principiantes

Calma, ainda está apenas em testes...

Calma, ainda está apenas em testes...

Todo mundo pensa que solucionar os problemas do tráfego é coisa complicada. Ficam criticando o João Batista porque resolveu levar à prática os planos e projetos que seu mentor, o Dário Berger, esboçou num guardanapo de papel, depois de ter conversado com a turma do Ipuf e achado uma bobagem tudo o que eles propuseram. Na verdade, ninguém precisa mais do que o João Batista tem: uma lista de itens elaborados pelo conceituado Jaime Lerner e a vontade política do Dário (que, ao que parece, foi a única coisa que deixou antes de desaparecer). Tá lá: “fazer corredores exclusivos para ônibus”. Pronto. É o suficiente.

O João Batista começou certo. Devagarinho. Primeiro a gente coloca cones. Muitos cones. Pra sentir como o tráfego se comporta, pra ver se funciona ou não. E ainda tem gente de pouca cultura que acha que os cones foram inventados pelo João Batista.

Só idiotas não vêem a beleza de uma filinha de cones

Só idiotas não vêem a beleza de uma filinha de cones

Em todo lugar do mundo onde tem asfalto e automóvel, tem cones de tráfego. Ou, em inglês, “traffic cones”. É preciso vencer essa resistência que as mentes embotadas dos velhos tem pelos cones. Eles são onipresentes. Uma estimativa da Untrafcone (organismo das nações unidas para cones de tráfego) calcula que existam cinco cones alaranjados para cada habitante da terra. As demais cores não foram incluídas neste estudo.

O amor pelos cones deve começar bem cedo

O amor pelos cones deve começar bem cedo

A melhor forma de fazer com que os cones passem a fazer parte da vida urbana com naturalidade, é iniciar já na pré-escola. Transformar o cone num personagem de desenhos animados, de joguinhos, num amiguinho em quem todos podem confiar nas horas incertas. Em vez de ficar distribuindo dicionários, o secretário da educação do estado deveria ir de casa em casa distribuindo conezinhos de brinquedo. É muito educativo.

Com um pouco de talento, viram objetos fashion

Com um pouco de talento, viram objetos fashion

Para os jovens, há várias maneiras inovadoras de incorporar os cones ao dia-a-dia. Vejam só que maravilha, nesta foto, as mocinhas transformaram os cones em chapéus cheios de graça. E ainda têm a vantagem de proteger da chuva e, se for preciso, ajudar a sinalizar quando precisar parar para… trocar o pneu.

Google cones (à esquerda) e um cone egípcio pré-histórico

Google cones (à esquerda) e um cone egípcio pré-histórico

Em cidades como Florianópolis, que são praticamente filiais do vale do silício, com inúmeras empresas de alta tecnologia, pega bem usar os cones com criatividade, colorindo-os como no exemplo acima.

Os cones, como vocês sabem, foram inventados antes mesmo da invenção da roda. Claro que, naquela época, eram angulosos. Mas assim que as primeiras rodas foram colocadas na primeira carroça, já estava lá, atento, o proto-engenheiro de tráfego amador, com um cone semelhante ao do desenho acima, delimitando a área de rodagem. E fazendo a primeira experiência documentada de faixa exclusiva para tigres de bengala.

Arte e utilidade levada ao extremo. Uau!

Arte e utilidade levadas ao extremo. Uau!

Os cones são, eles próprios, estimuladores da criatividade. Um engenheiro de tráfego amador, sempre que fica algumas horas observando o efeito das alterações no trânsito, acaba sendo dominado por uma vontade irrefreável de fazer alguma obra de arte. No exemplo acima, com alguns tubos de cola superbond (especial para plástico) criou-se uma esfera cônica de múltipla função. Se for atingida por um veículo na velocidade correta, será projetada a dezenas de metros, caindo no meio de alguma faixa de tráfego, gerando um efeito em cascata maravilhoso, de conseqüências imprevisíveis.

Faixas exclusivas na Coréia e na Inglaterra

Faixas exclusivas na Coréia e na Inglaterra

As faixas exclusivas para ônibus estão em uso na maioria dos países onde existem ruas e ônibus. Em alguns, como a Inglaterra e a Coréia, a faixa dos ônibus é pintada de vermelho, para que o motorista do automóvel tenha mais facilidade em perceber que será multado. Em São Paulo, na gestão Maluf, os corredores exclusivos eram amarelos. Depois acho que chegaram até a ser brancos (ou será que sonhei com isso?).

Em todo lugar, faixa exclusiva é exclusiva

Em todo lugar, faixa exclusiva é exclusiva (aí é no Canadá)

O grande problema de uma faixa exclusiva para ônibus, é que tem horas que ela fica vazia. Aí, os gênios que estão dentro dos carros, parados no congestionamento, ficam xingando. Bom, em primeiro lugar, bem feito. Quem mandou preferir o automóvel, se o transporte coletivo é, como tem sido dito na TV, uma maravilha? Quem conhece se surpreende.

Uma idéia “genial”: ônibus e bicicletas na mesma pista...

Uma idéia “genial”: ônibus e bicicletas na mesma pista...

Essa aí é uma idéia que eu não recomendaria a nenhum engenheiro de tráfego amador principiante, viu João Batista? Pelo menos não nos primeiros tempos, quando a população ainda não tem total e irrestrita confiança de que tudo o que tiver sido proposto dará certo. Quando chegar ao ponto de que, assim que forem colocados os cones os eleitores aplaudirem e quando for pintada a faixa branca os contribuintes elogiarem, então talvez seja possível tentar esses passos mais audaciosos. Colocar ônibus e bicicletas na mesma faixa, em cidades como a nossa, onde os motoristas de ônibus ainda estão aprendendo qual a função daquele pedal que tem entre o acelerador e a embreagem, pode ser perigoso. Mas, ao mesmo tempo, pode ser interessante, porque os ciclistas sempre poderão se enganchar no busão e ir de carona.

Talvez o mais prudente seja permitir que a faixa de ônibus seja compartilhada pelas motocicletas. E, para evitar qualquer incômodo futuro, exija que os ônibus, ao circular na faixa, tenham uma altura do chão até a carroceria que permita a passagem de um motociclista. Assim, evitam-se esmagamentos e permitem-se subpassagens aos apressadinhos. Ou seja, todos os motociclistas.

Bom, é isso, por hoje. Esta é uma ciência ampla, cheia de desvios, com muitas vias laterais, alguns retornos e sempre gratificante, porque a experiência de hoje é o engarrafamento de amanhã e o engarrafamento de amanhã sempre proporcionará muitas outras experiências. Um bom dia a todos e não esqueçam: o cone é seu amigo.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. A photo portuguesa [last one] em inglês é du caraglio, Uncle.

    Posted by LesPaul | abril 28, 2009, 10:31
  2. Pensei que você ia coloca uma foto dos cone heads também.

    Posted by felipe | abril 28, 2009, 18:45
  3. Felipe, cheguei a pensar nisso. Mas desisti porque tenho a impressão que a turma do João Batista não viu o filme, muito menos o Saturday Night Live e talvez nem tenham a menor idéia do que são aqueles esquisitões.

    Posted by Cesar Valente | abril 28, 2009, 19:41
  4. Agora sim, somos a capital turística do Cone Sul.

    Posted by Marcos Maciel | abril 28, 2009, 21:55

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