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Crônicas

Essas mulheres…

Não estava planejando fazer nada do tipo “comemorativo” neste dia da mulher. Mas aí lembrei (talvez tarde demais) que as mulheres detestam essas datas, mas odeiam quando a gente esquece ou não diz nada.

Corri à gaveta, retirei um textinho antigo, embrulhei-o em papel de presente e o estou entregando às leitoras do blog, com aquele “não repara, é só uma lembrancinha” balbuciado entre dentes. Espero que gostem. Embora não tenha sido escrito hoje, foi feito em homenagem às mulheres. É de coração.

O DRAGÃO E A FORMIGA

Esta croniquinha foi escrita em junho de 2003, a partir desta frase da GiNiKi (uma blogueira minha amiga, de Belo Horizonte): “O dragão solta fogo e me sinto uma formiga chamuscada. Que fazer? Blogar? Beber até cair?”

A formiga chegou em casa que era um caco. Um caquinho. Bateu a porta, jogou a bolsa longe, aliviou-se desabotoando o sutiã e tirando-o pela manga mesmo. Desapertou o cinto, chutou cada sapato numa direção e jogou-se no sofá, cobrindo os olhos com as duas mãos.

Vontade de gritar sufocada na garganta para não dar assunto para os vizinhos metidos. Restaram os suspiros. Os lamentos da alma. E uma vontade de chorar que não se resolvia: não derramava as lágrimas represadas nem desimpedia a garganta. Um nó. Que se danem os nós!

Tinha sido mais um dia daqueles. A formiga anda muito mal instalada. Para ir de casa para o trabalho, depois do trabalho para o restaurante, de volta para o trabalho e finalmente pra casa, tinha que atravessar léguas e léguas de descampado, justamente onde brincam os dragões.

Brincadeira de dragão, vocês sabem, é bem estúpida. Quando ficam alegres, em vez de rir como todo mundo, soltam labaredas. Quando ficam brabos ou chateados, em vez de xingar como qualquer pessoa, soltam labaredas. E quando estão tristes e acabrunhados, em vez de chorar como criaturas normais, eles soltam labaredas. Parece que comem napalm e arrotam lascas do inferno. Saco.

Pois bem, a formiga, trabalhadeira, bonitinha, caprichosa, bem vestidinha, sem luxo mas com enorme bom gosto, tinha que tomar muito cuidado para não ser atingida pelo fogo dos amigos dragões que nunca prestavam atenção nela nem em suas amigas. Eram capazes de pisar em cima e nem perceber que tinham amassado alguém. O jeito é correr, calcular os movimentos, um estresse. Uma canseira. E o medo, então?

Não tem como chegar em casa sem parecer uma pilha de nervos. Sempre pensava em largar dessa vida, mudar, arranjar outra coisa pra fazer, trabalhar em outro lugar. Porque ali, do jeito que estava ficando perigoso não tinha futuro. Mas cadê coragem? E as formigas, por mais mimosas e inteligentes, não sabem viver sozinhas. A turma sempre anda junta. Desde que o mundo é mundo.

No banho, quente e demoraaaado, começou a se acalmar. Dali a pouco, passando um hidratante nas pernas peludas, já estava começando a respirar normalmente. E finalmente dormiu quase em paz. Sonhou que vivia num lugar sem dragões. Mas depois do café da manhã, ao colocar o pé para fora de casa, já estava atenta, antenas eretas, caminhando rápido e com cuidado. Exatamente como ontem. E ela ficava cansada mais cedo porque já sabia como estaria ao voltar pra casa. É dura a vida de uma formiga numa terra de dragões.

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  1. ” AGORA É ELLA”

    Posted by ANILSE SEIBEL | março 10, 2009, 12:17

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