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Bloguices

A semana dos enigmas

Coelhinho e seu ovo

Ilustração: André Valente

Um dos maiores mistérios da civilização é celebrado esta semana: um coelho que nasce de um ovo, ou, segundo outras variantes, põe ovos. Em todo caso, distribui ovos.

Antigamente a preparação era extensa: durante muitas semanas todo ovo utilizado nas casas era cuidadosamente aberto, com seu conteúdo retirado por um pequeno orifício numa das extremidades ovóides do ovo. Não se quebrava o ovo de qualquer jeito.

Depois de lavadas e secas e pintadas com maior ou menor apuro (dependia do nível artístico da casa), as cascas eram preenchidas com as mais variadas guloseimas, que iam do amendoim japonês (!!!) feito em casa, aos confeitos de açúcar colorido. Em alguns países só se pintava o ovo depois de cozido, sem abri-lo. E afinal eram colocados nas cestinhas que seriam cuidadosamente escondidas para que, no domingo, a criançada passasse horas procurando onde que esse coelhinho safado (ou maroto, como diz a canção popular) tinha enfiado os presentes.

Bom, o fato é que jamais saberemos qual o real parentesco do coelho com a galinha e muito menos o que têm a ver as multinacionais do cacau com essa história toda. Mesmo sem entender direito, come-se muito chocolate, muito ovo e, em algumas regiões, muito coelho assado, ensopado e na brasa. Delícia.

Amanhã recomenda-se fazer jejum para preparar o pandulho (fígado incluído) para os exageros do domingo. No máximo um peixinho grelhado. Evite por todos os meios comer o coelho na sexta ou no sábado, pra não estragar a festa. Deixe para o domingo, depois que as crianças tiverem encontrado as cestinhas com os ovos do coelhinho.

Ovinhos

Feliz Páscoa! E boa sorte com os ovos do coelho!

Caraminholas

Sexta-feira santa. Santa?

Os cinqüentões decerto lembram do tempo em que, na sexta-feira santa, o rádio tocava música clássica (genericamente chamada de “música sacra”). Em casa, a gurizada precisava falar baixo, nada de cantoria e muito menos de xingamentos. Afinal, era um dia de luto.

Como contam as Escrituras, “já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu a terra até às três da tarde, pois o sol parou de brilhar”. A coisa era séria e grave, pro dia ter virado noite. Nas igrejas, as imagens estão cobertas com panos roxos. Mesmo bares e restaurantes que se gabavam de funcionar o ano todo, todos os dias, na sexta-feira santa fechavam.

Era o feriado mais “pesado” dentre todos. Até a comida era diferente. Sem carne, sem exagero. Clima de velório mesmo.

Depois, a coisa foi mudando, afrouxando, e a sexta-feira santa virou um feriado comum. Com todas aquelas ousadias profanas dos demais dias. Música alta de todo tipo. Brigas, palavrões, comércio, agitação e os pecados de sempre.

Parece que ninguém mais liga para o fato de terem crucificado Jesus. Muito menos para o dia em que é lembrada a tortura e morte dolorosa daquele que mandava que nos quiséssemos bem.

João, o evangelista, conta, a propósito do que Ele dizia, o seguinte:

“Quem possuir bens deste mundo, e vir seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade”.
(I Jo 3, 17-18)

E tem aquela, famosa, do que Ele teria deixado como mandamento:

“Se alguém disser: – Amo a Deus – mas odeia a seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus esse mandamento: o que amar a Deus ame também o seu irmão”.
(I Jo 4, 20-21)

É… de fato, imersos nisto em que transformamos o mundo, não faz sentido reverenciar o dia em que Jesus foi morto pela primeira vez. Assim como também perderam o sentido o sábado de aleluia e a Páscoa.

Nossos ódios diários matam o amor e seus profetas todos os dias. E é claro que não iríamos permitir que ressuscitassem ao terceiro dia. Coelhos saem de todas as tocas, toneladas de chocolate entopem todos os sentidos, fortunas são depositadas nas caixas registradoras dos templos de consumo para que a tal ressurreição, se ocorrer, nem seja notada.

Em todo caso, cá no meu canto, remoendo as lembranças distantes, do tempo em que o mar vinha até aqui e ali pra cima era tudo mato, acho que amanhã vou fazer pelo menos um minuto de silêncio. Nem tanto pelo Jesus esse de quem tantos falam tanto e tão poucos entendem a mensagem, mas principalmente por nós todos.

A gente está conseguindo, com espetacular competência, matar a esperança. Os bens preciosos da cultura, do entendimento, da cordialidade e da boa convivência estão escasseando assustadoramente. Deixaremos, para nossos filhos, um mundo pior do que aquele que encontramos. Triste, né?

Caraminholas

Não entendo!

Da série
DUAS OU TRÊS COISAS QUE NÃO CONSIGO ENTENDER!

Big Bang Theory

“The Big Bang Theory”, série do canal Sony, na TV paga.

UM
TV aberta x TV paga

Algumas décadas atrás a gente só tinha TV aberta, grátis, mas cheia de comerciais. A justificativa era que, como ninguém pagava nada pra assistir, eles precisavam tirar o sustento da venda dos espaços comerciais.

Aí, quando começaram a discutir a regulamentação da tv a cabo (paga), teve uma boa briga, entre aqueles que queriam que a nova modalidade de TV não repetisse o modelo mercantilista da TV aberta e os que queriam exatamente isso.

É só olhar um pouco para o que os canais pagos transmitem, pra ver quem ganhou essa briga. Agora, para ter variedade de canais e imagem HD, a gente paga um monte e tem que assistir a mesma montoeira de anúncios da TV aberta e grátis. Não faz sentido: se tem faturamento dos anúncios, por que cobrar de quem assiste?

Sarney e Lula

Irmãos de fé: Sarney e Lula. Foto: André Coelho/Agencia O Globo

DOIS
A velha política é eterna

Quando a ditadura brasileira que seguiu ao golpe cívico militar de 1964 entrou naquele processo de “abertura lenta, segura e gradual”, a gente assisitiu a um fenômeno muito interessante. Os militares, de fato, deixaram o poder, com a eleição (indireta) do Tancredo Neves.

Mas, os civis que tomaram parte no golpe e na mesma ditadura, não só não deram sinais de retirada, como continuaram mais ativos que nunca. José Sarney, uma vez empossado na presidência (pelo impedimento do Tancredo), começou um movimento lento, seguro e gradual de tirar os “radicais” (sonhadores que acreditavam que, com a saída dos militares o Brasil deveria mudar), de postos estratégicos do governo.

Aos poucos o governo da “Nova República” anunciada por Tancredo (ele mesmo um moderado), ganha a “cara” do Sarney ou, pelo menos, de quem o sustentava.

Anos depois, quando a gente, cansado da mesmice, elegeu o Lula, talvez imaginasse, lá no fundo, que seria a vez de apear do governo também os civis que ainda estavam agarrados às tetas da viúva.

E o que vimos foi estarrecedor: não só o “novo” governo se aliou ao que havia de mais atrasado na política brasileira, como lhes deu poderes que nem Sarney havia ousado dar. E isso que Lula e o PT estiveram na linha de frente da luta política pela democracia e o “estado de direito”.

E, pra completar, adotaram práticas de – vá lá – “financiamento de campanhas”, inspiradas e orientadas por aqueles que a “esquerda no Poder” tinha prometido escantear.

Confronto do sábado

O confronto do sábado. Foto: Eduardo Valente/Notícias do Dia

TRÊS
Pode x Não pode

No último sábado os invasores do terreno às margens da SC 401 tentaram ampliar seus domínios, instalando uma base num terreno vizinho. Rápida e eficiente, a PM fechou a rodovia, mobilizou batalhões, foi pra cima e, ao que tudo indica, não só impediu a nova invasão, como os fez recuar das novas áreas onde estavam começando a se instalar.

Ótimo que tenham feito isso agora. Mas não consigo entender por que não fizeram coisa semelhante há meses, quando a cidade inteira acompanou, por várias semanas, perplexa e assustada, a montagem do primeiro acampamento dos invasores? Na época, ninguém se mexeu. Como se tivesse ocorrido uma revolução comunista e o direito à propriedade tivesse sido abolido. E as terras da União estivessem sendo distribuídas a quem chegasse primeiro.

O que mudou daquela data para este final de semana?

Jornalismo

E o jornal de domingo?

Algumas reflexões domingueiras de um velho jornalista ranzinza.

Capa de O Estado

Capa de O Estado, em 14 de abril de 1988. Lembras disso?

Em 1988, quando fui editor-chefe de O Estado, a pressão para imitar os gaúchos e “fechar” (e rodar) a edição de domingo cada vez mais cedo, já era enorme. O Diário Catarinense era, na época, um concorrente ainda correndo atrás da liderança. Com a ajuda do Flávio de Sturdze, meu sub-editor, conseguimos montar uma equipe de primeira, com vários jornalistas “tirados” do DC. Não tinhamos, portanto, grandes problemas quanto ao conteúdo oferecido aos leitores e em várias edições eles comeram poeira. Mas a questão do final de semana era um pepino para administrar. Eu insistia, claro que o jornal de domingo saísse no domingo (e até concordava em que ele começasse a circular na noite de sábado). Mas o ponto principal era que eu achava que era importante ter, no jornal de domingo, o que tivesse acontecido no sábado.

A pressão cresceu quando o DC começou a colocar o jornal de domingo à venda ainda no sábado de manhã. Poucas horas depois de ter publicado o jornal de sábado, que acabou virando uma ficção, um desperdício de tempo e dinheiro. O pessoal da distribuição (e, naturalmente, o dono do jornal), viam o DC sendo vendido nas ruas de manhã, sem concorrência. Naquela hora os vendedores de O Estado (na época a venda nas ruas era significativa) não tinham produto novo para oferecer. Parecia, para o leigo, que O Estado estava “atrasado”. Mesmo que saísse (em geral no final da tarde de sábado) com noticiário atualizado e completo.

Sem ter como resistir à decisão do dono do jornal, começamos a tentar colocar na rua, junto com o concorrente, um jornal que a gente sabia que era frio (tanto quanto o deles ainda é), mas que atendia a essa pressão insana e sem lógica. Na prática, na sexta-feira, num troço assemelhado ao trabalho escravo, conhecido pela alcunha de “pescoção”, são feitas duas edições e meia (sábado, domingo e boa parte da segunda-feira). Um “plantão” no sábado tem chances quase nulas de alterar a edição de domingo. Trabalha mais para nutrir a edição de segunda-feira.

Por isso, um evento como o de ontem à tarde, na SC 401, não tinha nenhuma chance de ser publicado no jornal de “hoje”. O jornal de “hoje” já estava impresso na manhã de sábado. É (mais) uma dessas coisas criadas sabe-se lá por quem, para economizar uns trocados, que acabou se calcificando, virou pedra e agora ninguém consegue mexer.

Menos mal que agora a pressão é para manter equipes suficientes para atender a demanda de informação online. Que está “na rua” 24h. Mesmo nos sábados e domingos. O “pescoção”, que já parecia sem sentido em 1988, fica cada vez mais surrealista.

UPDATE DA TARDE DE DOMINGO

Lá no Facebook o Valdir da Silva O Catarina deixou um comentário bem interessante, com algumas informações sobre a origem dessa antecipação dos jornais de domingo:

Valdir Da Silva Ocatarina: Um pouco da história das edições de domingo sair aos sábados. Essa cultura é, por incrível que pareça do antigo Correio do Povo, da Caldas Júnior, nos anos 70. O Correio jornal tradicional com uma tiragem imensa aos domingos, com base num número alto de assinantes e um forte classificados aos domingos que já saia sábado a tarde, para atender os anunciantes e usuários desses anúncios que já iam para Rua da Praia, onde era impresso o Correio. Como cada vez aumentava mais os anúncios classificados do jornal, mais cadernos eram feitos, pela limitação de páginas que a impressora tinha. Dessa forma mais cadernos impressos, precisavam antecipar rodagem dos mesmos para encartes, aí começou outra cultura, como sabia os horários das rodagens dos cadernos, cada segmento, móveis, imóveis, carros, motos e no fim de empregos iam para a porta da Caldas Júnior os interessados nos seus respectivos negócios, logo, logo fazendo por parte dos funcionários das rotativas o cambio negro dos cadernos classificados. Aí começa a Zero Hora, quereno ganhar espaço dos jornais da Caldas. Começou a antecipar a rodagem do jornal de domingo para sábado e disputar esse mercado direto na porta do concorrente, na rua da Praia. Depois conto mais”.

BÔNUS

Um videozinho que fiz pra convidar o pessoal para o primeiro reencontro de ex-funcionários de O Estado, em 2011.

Dinossauros de O Estado (2011) from Cesar Valente on Vimeo.

Caraminholas

Que vivam os estudantes!

Os generais e a UFSC

Molecagem sobre foto do Domício Pinheiro/Estadão Conteúdo

Depois daquele rolo que houve na UFSC, entre estudantes e Polícia Federal, uma porção de gente saiu do armário e começou a desancar, nas tais “redes sociais” e mesmo em algumas emissoras de TV, rádios e jornais, a Universidade e, naturalmente, “esses maconheiros baderneiros que não querem estudar”.

Vários quase chegaram ao orgasmo quando um grupo de estudantes “que gosta de estudar e não concorda com a anarquia”, fez uma manifestação e hasteou a bandeira brasileira num mastro em frente à reitoria da UFSC.

Ora, em qualquer campus universitário de qualquer país democrático do mundo, policiais revistando mochilas e recolhendo carteiras de identidade provocaria uma reação do estudantado e dos professores. Talvez nem na Coréia do Norte os estudantes assistissem em silêncio e amedrontados.

O que admira, e até hoje desperta curiosidade, é como que a Polícia Federal, composta em geral por gente bem formada, não sabia que era preciso tomar certos cuidados, para entrar com fósforo aceso num tanque de gasolina?

Na Universidade se discute de tudo e ela só tem sentido se fermentar, em seu interior, a inquietação, a pesquisa, o debate e a nem sempre pacífica convivência das várias correntes de pensamento que formam a sociedade.

Tem gente que pensa diferente e que se veste diferente. E tem gente que pensa igual e se veste igual a seus pais. E a seus avós. É do jogo. E é dessa fricção que nasce o conhecimento e a vontade de aprender cada vez mais.

Nem os generais que nos governaram por tanto tempo e preocuparam-se tanto em colocar os universitários nos eixos, acreditavam que conseguiriam calar a todos e mante-los todos, o tempo todo, obedientes e pacíficos como frangos a caminho do matadouro.

Mas agora vejo, com estupor, que falam em usar a Lei de Segurança Nacional (essa mesmo, do tempo da ditadura) contra quem se rebelou na UFSC. Os artigos citados pela PF são: 18 (tentar impedir o livre exercício dos poderes da União), 20 (depredar por inconformismo político), 22 (fazer propaganda de processos violentos para alteração da ordem política ou social) e 23 (incitar à subversão da ordem política ou social).

Pelo jeito ainda estamos em 1968!

ME GUSTAN LOS ESTUDIANTES
De Violeta Parra

¡Que vivan los estudiantes,
jardín de las alegrías!
Son aves que no se asustan
de animal ni policía,
y no le asustan las balas
ni el ladrar de la jauría
Caramba y zamba la cosa,
¡qué viva la astronomía!

¡Que vivan los estudiantes
que rugen como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos
Pajarillos libertarios,
igual que los elementos
Caramba y zamba la cosa
¡vivan los experimentos!

Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura,
para la boca del pobre
que come con amargura
Caramba y zamba la cosa
¡viva la literatura!

Me gustan los estudiantes
porque levantan el pecho
cuando le dicen harina
sabiéndose que es afrecho,
y no hacen el sordomudo
cuando se presenta el hecho
Caramba y zamba la cosa
¡el código del derecho!

Me gustan los estudiantes
que marchan sobre la ruina
Con las banderas en alto
va toda la estudiantina:
son químicos y doctores,
cirujanos y dentistas
Caramba y zamba la cosa
¡vivan los especialistas!

Me gustan los estudiantes
que van al laboratorio,
descubren lo que se esconde
adentro del confesorio
Ya tienen un gran carrito
que llegó hasta el Purgatorio
Caramba y zamba la cosa
¡los libros explicatorios!

Me gustan los estudiantes
que con muy clara elocuencia
a la bolsa negra sacra
le bajó las indulgencias
Porque, ¿hasta cuándo nos dura
señores, la penitencia?
Caramba y zamba la cosa
¡Qué viva toda la ciencia!

Bloguices

Gentileza gera gentileza

No dia 03/03/03 publiquei um loooongo post e hoje, véspera do 03/04/14, trago pra cá, apesar do tamanho. Trata de um assunto que era mais ou menos novidade na época, mas que continua atual: como devemos nos comportar ao comentar nos blogs e perfis alheios.

Gentileza Gera Gentileza

(Publicado em 03/03/03 no blog Carta Aberta)

O mario av publica a regra fundamental de convivência nos fóruns públicos (como nos comentários de blogs, por exemplo) que é a expressão que dá título a esta crônica. Tem vários corolários e vale uma visita ao mario (que mário?), caso não a conheças.

(Nota do Tradutor: não encontrei mais o blog do mario av mas achei as regrinhas no arquivo da Cora Rónai, aqui).

Pois bem, toda convivência exige a obediência a um conjunto de regras. Se as regras forem mínimas e todos as aceitarem, será uma convivência mais leve. Se as regras forem excessivas, a convivência pode ficar tão difícil como quando não ocorre respeito a nenhuma regra. Trata-se, então de uma daquelas coisas fáceis/complicadas da vida em comum.

A discussão, o debate e a polêmica são atividades humanas muito estimulantes. Quando ocorre sem agressões físicas e naquele nível que os antigos chamavam de “no embate das idéias”, é até bonito de acompanhar. Duas pessoas cultas, bem informadas, bem formadas, com pontos de vista divergentes, podem produzir faíscas quando debatem. E ganhamos todos com isso. Mesmo que em alguns momentos as vozes se alterem, que alguém levante da cadeira para falar ainda mais alto. E desde que os argumentos seja esgrimidos como num duelo: não como em dois monólogos.

Quando alguém fala em regras de convivência, a gente sempre tem a tentação de pensar que talvez o silêncio seja mais adequado para evitar problemas. Nem sempre. Uma das principais riquezas da civilização é o progresso que o confronto de idéias pode gerar. A humanidade avança quando as idéias são expostas e discutidas abertamente. E quando todos podem expressar-se.

Claro que existe uma enorme nuvem de utopia cobrindo tudo isso e sempre corremos o risco de descobrir que os seres humanos não são muito afeitos ao progresso intelectual. Preferem a força de um tacape na cabeça de quem discorda das suas idéias.

E tem um outro problema: duas pessoas gritando uma com a outra não significa, automaticamente, que temos aí um bom debate para assistir. Mesmo que estejamos dentro de uma universidade. Ou de um parlamento. Tem muita gente que substitui o tacape pelas palavras, mas o propósito é o mesmo: rachar a cabeça de todos os adversários. E a palavra, sabemos, pode ser instrumento eficiente de morte e mutilação.

Pois é, depois desse discurso errático e volumoso, acho que consigo resumir e encerrar: desde que obedecidas regras mínimas de civilidade, é sempre melhor uma boa discussão, mesmo que aos berros, que o silêncio obsequioso e fingido.

Política

Primeiro de abril!

Coluna de hoje no Diarinho

Coluna de hoje, no Diarinho

Jornalismo

A opinião e a informação

Deixa ver por onde posso começar… os colegas vão ficar meio chateados, mas não posso ficar quieto. Todo e qualquer veículo de comunicação tem direito a expressar suas opiniões. E é bom que isso seja feito da forma mais clara possível. Por isso, historicamente, os veículos usam um espaço especial para se posicionar, os editoriais.
A RIC publicou hoje um editorial sobre a questão da UFSC. Exerce seu direito e, ao caracterizar claramente como editorial, respeita seus leitores e espectadores.

Mas, no RIC Notícias de ontem e de hoje apresentou, como se fossem reportagens, verdadeiros “editoriais”, onde a opinião da rede contaminou (e, a meu ver, corrompeu) o que deveria ser “apenas” noticiário. O jornalismo escondeu-se debaixo do tapete, morto de vergonha e emergiu na tela, com a pompa e circunstância que costuma usar, a opinião editorializada.

Uma pena. Porque, se fez uma coisa certa e louvável, que é apresentar publicamente sua posição no editorial, a RIC escorregou amadoristicamente ao permitir que fossem ao ar “reportagens” opinativas.

E precisava disso? Claro que não. Uma boa reportagem sobre o que ocorreu hoje e ontem na UFSC, acabaria passando para o espectador, com informações, uma sensação semelhante àquela que quiseram impor apenas com adjetivos.

Não houve, aparentemente, preocupação com o jornalismo. Houve a preocupação em derrotar um adversário. Engajou-se, a emissora, numa tarefa que talvez, à primeira vista, pode ter parecido nobre e merecedora de seu comprometimento. Abandonou-se, com isso, o bom e valioso caminho da informação descolada da opinião.

E não estou falando isso porque pretenda defender os pixadores da reitoria ou os maconheiros. Muito menos porque seja contra o cumprimento da lei. Estou falando apenas porque me preocupo com o jornalismo e sua credibilidade.

A opinião é barata. Tal como esfínqueteres, fígados e patelas, todos temos. Sei disso porque desde 2005 produzo colunas de opinião, dou pitacos sobre mil coisas. Tenho opinião formada sobre rigorosamente tudo. E não vejo grande vantagem nisso. Vejo, ao contrário, enorme valor nos colegas que vão ao locais, perguntam, tomam chá de cadeira, ouvem desaforos, pesquisam, garimpam e ao final produzem um belo texto recheado de informações. Que não têm compromisso com a opinião do veículo, ou desta ou daquela corrente. Têm compromisso com o leitor/espectador e com a exatidão do que publicam.

Por isso, perder dessa forma a oportunidade de informar com o distanciamento possível e com a profundidade que os valiosos minutos de TV permitem, enche-me de vergonha alheia. Vergonha inclusive pelos colegas da RIC cujo profissionalismo e respeito ao jornalismo são conhecidos por muitos de nós.

Espero que tenha sido apenas um deslize editorial. Como foi aquele caderno do Bokarra no DC. E que, depois de discussões internas, cheguem à conclusão que havia outras maneiras de enfrentar o caso.

E para não acharem que se trata de bater num em favor de outro: a notícia que a RBS publicou hoje, sobre o papel da professora Sônia Maluf no confronto da terça-feira, usando apenas o que a Polícia Federal divulgou, é outro momento triste para o jornalismo. Custava ter ouvido a professora? Conversaram com ela sobre outros assuntos, sabiam como entrar em contato, mas preferiram prestar um serviço à PF, servindo apenas como porta-vozes acríticos. E obedientes.

Pra encerrar: sim, embora os conceitos ancestrais de “esquerda” e “direita” tenham sofrido alterações, diante de tudo o que foi dito (e bradado) nas tais “redes sociais” nos últimos dias ficou mais fácil notar quem é quem. E que há lados opostos. Talvez não só dois, mas com certeza opostos. E eu fico feliz em notar que, aos 60 anos, continuo onde sempre estive, com poucas e compreensíveis variações.

“Que vivan los estudiantes
Jardín de nuestra alegría
Son aves que no se asustan
De animal ni policía
Y no le asustan las balas
Ni el ladrar de la jauría
Caramba y zamba la cosa
¡Qué viva la astronomía!”

Mas, por favor, que paguem pelos danos que por acaso tenham feito à reitoria, na ocupação. Um beijo do vô e bom finde.

Ranzinzices

A quem interessar possa

Por meio deste instrumento público proíbo o Ministério da Educação, a Reitoria da UFSC ou qualquer outro ente federal, estadual ou municipal, de usar a parcela que contribuí, no montante de impostos arrecadados, para repintar o prédio da Reitoria, pixado pela turminha que pernoitou lá uns dias. Nada contra o livre debate das idéias, mas não acho justo que, em toda ocupação profissional em que ocorra vandalismo, quebra de móveis e utensílios, pixações e sujeiras diversas, sejamos nós os responsáveis pelo pagamento dos consertos. Quem lá esteve (seja quem for, pertencente à organização que for) é que deve pagar pela recuperação do local. Ou, se não tiverem grana, podem pegar baldes, esfregões e outros instrumentos e fazer o serviço. Sei que esta proposta parece radical, mas é apenas razoável. Obrigado pela atenção e bom fim de semana.

Caraminholas

Posso falar?

Criticar uma operação desastrada da polícia não significa ser a favor do crime que eles alegavam pretender combater. Achar que tem mais coisas do que apenas cinco usuários de maconha na operação da polícia federal (a tal que começou com um jeitão atipicamente atabalhoado), não significa endosso ao discurso de defesa da “autonomia ampla e irrestrita a qualquer custo” que alguns mais exaltados estão brandindo.

A quem interessa criar um fato de grande visibilidade, que deixe mal a reitora em ano eleitoral, que passe a imagem de falta de controle, de “caos”, de complacência com o crime? E que desqualifique uma das melhores universidades públicas do país, reduzindo-a a uma “república de maconheiros”?

Parece uma teoria da conspiração muito improvável? É, parece. Mas tem algumas pontas soltas:

1) por que a polícia federal se mobilizou numa operação para prender, ainda que em flagrante, apenas cinco usuários de maconha?

2) por que fez isso dentro (ou próximo) de uma lanchonete de universidade, de um jeito que não tinha como não chamar a atenção?

3) por que entraram com um carro descaracterizado numa área do bosque cujo acesso a veículos está proibido (alguém da segurança da UFSC abriu a cancela, claro), chamando ainda mais atenção?

4) por que um policial com touca ninja (e pelo que consegui ver, da polícia federal) quebrava um dos vidros do carro de vigilância da UFSC, como mostram os vídeos, antes das duas “viaturas” serem abandonadas?

5) por que as duas “viaturas” foram abandonadas diante do grupo de estudantes mais agitados depois de tanto esforço do choque, com balas de borracha e bombas, para liberar o “perímetro”? Queriam ver o que aconteceria? Agora os idiotas que caíram na armadilha como uns patinhos, perfeitamente identificáveis nos vídeos e fotos, serão processados por depredação de bem público federal.

6) o destempero verbal do Super PF parece ter sido apenas isso: respondeu com o fígado a uma nota que julgou injusta e incorreta. Mas é claro que ajudou bastante ao processo como um todo, ao desqualificar a reitora, tratando-a como pessoa mentirosa, sem caráter e conivente com o crime.

Enquanto isso, nas “redes sociais”, a malta se diverte. Acham um absurdo a autonomia universitária, acham que o único objetivo é proteger o ilícito e que a polícia tem o direito de fazer qualquer coisa, a qualquer hora, a qualquer pretexto, na sua nobre tarefa de combater o crime.

Mas, assim como estudantes não estão acima da lei nem os delinquentes devem ter privilégios, a ação que visa garantir a segurança também precisa ter controle e propósito claro. E, mais uma vez:

a) querer que criminosos sejam presos e processados não significa dar carta branca para as “forças de segurança”; e

b) querer que a polícia atue com inteligência, competência e eficiência não significa que queremos deixar criminosos livres e impunes.

Política

O que houve?

Pimenta no professor

Pimenta nos olhos dos outros… Foto do Marco Santiago/Notícias do Dia

Taí, na foto, a síntese do “diálogo” de terça-feira na UFSC: o spray de pimenta “tamanho família” da Polícia Federal (ou da PM em defesa da PF), acionado contra um perigosíssimo professor, que provavelmente estava armado com palavras letais.

Sabe que eu não sei? Quer dizer, até acho que sei, mas não consigo entender direito. Parece um “jogo dos sete erros”, uma cena em que a gente, cada vez que olha com mais atenção, nota mais uma coisa errada. Uma sucessão de erros.

Até onde consegui saber, o primeiro erro foi a prisão, numa das lanchonetes da UFSC, mais precisamente no CFH, de suspeitos de serem usuários de drogas. Prisão, por policiais a paisana, num local público, sempre chama a atenção. Numa universidade, então…

Daí, quando os policiais levaram os detidos para o bosque (tradicional local de meditação dos puxadores de fumo), várias pessoas foram atrás. Inclusive professores, preocupados com aquela ação pouco comum. O resto era mais ou menos inevitável: a solidariedade dos colegas, os curiosos, os que gostam de ver o circo pegar fogo criaram uma situação que encurralou os policiais, que chamaram reforço (que chegou rápido, como se estivessem ali por perto, esperando).
Primeiro vieram outros policiais federais, depois do batalhão de choque da Polícia Militar. Aí a coisa desandou de vez. Os policiais foram embora e os “baderneiros” (tem gente que gosta muito desta palavra) viraram as “viaturas” e foram, pra variar, “ocupar” a Reitoria.

E por que tudo isso? As drogas são um problema histórico na UFSC. A proximidade com os morros e o número elevado de usuários cria um ambiente difícil de controlar.

Por que então uma ação da Polícia Federal contra drogas gerou tal reação? Daqui de longe acho que houve uma trapalhada inicial de quem fez a abordagem e a prisão. É óbvio, mesmo para um leigo nas artes policiais, que o ambiente estudantil é facilmente inflamável e eles encostaram um fósforo num barril de pólvora.

Perto de onde houve a prisão, havia uma reunião de professores de um dos sindicatos nacionais da categoria todos, claro, habituados às lutas políticas. Correram para o bosque, quando ouviram o alerta de que a polícia estava levando estudantes. E dirigentes do Centro também foram pra lá. O que estava a polícia fazendo na UFSC às duas horas da tarde? Até vocês, se estivessem ali perto, iriam ver o que estava acontecendo.

Aí foram horas de uma conversa de surdos. A polícia federal só aceitava uma proposta: que a multidão se dispersasse e os deixasse em paz. Os interlocutores que falavam em nome da UFSC, não queriam que os presos fossem levados pela polícia. Queriam fazer valer a autonomia universitária.

A esta altura, os maconheiros já não estavam mais no centro da questão. O assunto já era outro: de um lado, fanfarrões e despreparados, alguns policiais diziam idiotices ameaçadoras do tipo: ““aproveite a democracia, porque se tiver uma ditadura você será o primeiro a dançar”. Um elenco de provocações que chamou a atenção dos mais experientes. “Parecia coisa orquestrada”, reclamavam, do outro lado, indignados com a insistência dos policiais. Estudantes e professores uniam-se na defesa da “autonomia ampla e irrestrita”.

Um capítulo especial da comédia de erros foi protagonizado pelo Super PF, o Superintendente da Polícia Federal, Capitão Nascimento, digo, delegado Paulo Cassiano Júnior. Indignado com a nota “de repúdio” que a reitoria da UFSC publicou às 23:30 da terça, o delegado parecia um garoto de colégio, chamando para a briga o desafeto e reagindo com o fígado a uma provocação. De uma autoridade da polícia federal esperava-se um pouco mais de visão estratégica. As ofensas que dirigiu à reitora da UFSC (“A reitora quer transformar a universidade numa república de maconheiros”, por exemplo) funcionaram como gasolina ateada a um fogaréu que, sem combustível adicional, poderia se extinguir mais cedo.

A reitora errou no tom da nota, até porque tinha pedido à Polícia Federal ajuda para lidar com o problema das drogas no campus. E o delegado errou no tom da resposta.Antes, a UFSC já tinha errado ao não acompanhar e treinar adequadamente seu serviço interno de segurança, do qual os alunos têm tanto medo quanto têm dos assaltantes, ladrões e traficantes.

O que deve preocupar a todos, é a tentativa de desqualificar uma universidade como a UFSC e os estudantes de uma maneira geral, por causa de um problema que embora exista há décadas, não é generalizado. Em ano de campanha eleitoral para a reitoria, há quem suspeite que, no fundo dessa “ação”, estejam adversários da atual reitora, tentando criar um clima de falta de controle, de ilegalidade e de “caos”, que lhes seria muito favorável.

Caraminholas

A grande enchente

Nasci em Florianópolis e fui levado logo em seguida para Tubarão. Morei lá de 53 a 63. Ao chegar de volta a Florianópolis, no comecinho de 64, para cursar o “ginásio” no Colégio Catarinense (depois, claro do “exame de admissão”), trazia boas lembranças de uma infância divertida, onde as enchentes frequentes tinham papel importante… na diversão.

Casa em Tubarão

A casa onde morei. Aquela era a janela do meu quarto. Enchente de 1954.

Aquela casinha com água no porão era onde eu morava. A janela do meu quarto está assinalada. Essas fotos foram tiradas em 2 de abril de 1954 (há 60 anos!), provavelmente pelo meu pai, porque estavam entre as coisas que ele guardava, mas pode ter sido por algum amigo ou vizinho. Claro que desta aí não lembro (era ainda um bebezinho), mas lembro de algumas outras, quando tinha entre 7 e 10 anos, que eram mais ou menos parecidas: enchia a garagem, mas não atingia o piso onde a gente morava. E um pedaço de rua na frente nunca enchia, o que permitia sair em direção ao trilho do trem e ao morro que ficava em frente.

Enchente de 1954, Tubarão

A minha casa, à esquerda. Outro ângulo da mesma enchente de 1954.

Esta outra foto, feita na mesma data, mostra os fundos da nossa casa (à esquerda) e as casas de uma espécie de vila, da família Medeiros. O seu Ageu Medeiros (farmacêutico conhecido na cidade) morava naquela casa grandona, ao lado da nossa.

Depois que saí de Tubarão, no final de 1963, fiquei muito tempo sem voltar. Passava por ali, quando ia para Porto Alegre onde morei a partir de 1973. Mas não parava. No dia 25 de março de 1974, quando cheguei no jornal Diário de Notícias de Porto Alegre, onde trabalhava como repórter, só se falava numa enorme enchente que estava ocorrendo em Tubarão. Claro que me apresentei como voluntário para ir até lá. O jornal era pequeno, desorganizado, complicado, mas consegui autorização. Imagino que o fato de não precisar de muito dinheiro para diárias (meus pais moravam em Florianópolis) e me dispor a também fotografar, ajudaram os chefes a mandar aquele “foca” para Tubarão.

Chegar a Florianópolis (de avião) foi a parte fácil. Imaginava pegar o carro do meu pai e ir até Tubarão. Mas quando cheguei à capital já se sabia que ninguém entrava na cidade. A situação era de calamidade mesmo e a cidade estava isolada. Só entravam militares ou gente com autorização.

Não lembro exatamente como cheguei a isso (provavelmente os colegas de O Estado ajudaram), nem quanto tempo levou, mas lembro da viagem para Tubarão, de carona numa rural willys alugada por um repórter da Associated Press (talvez tivesse também alguém do JB, mas não tenho certeza). Já tinha acabado de chover e, ao entrar na cidade, coberta de lodo, o cheiro forte deixou uma impressão indelével na memória. Instalei-me na sucursal de O Estado, que ficava perto da catedral, num local elevado e que não tinha sido atingido pela enchente.

Assim que pude, fui até a minha antiga casa, aquela das fotos acima (que não era mais nossa, fora vendida uns anos antes), para ver como estava. O lodo espesso e profundo cobria tudo e umas tábuas permitiam chegar até a porta, que estava aberta. Entrei e, apesar de não morar ali há dez anos, senti o choque. As marcas da água iam até o teto. As pias, do banheiro e da cozinha, estavam cheias de lodo. O maleiro, no alto do armário de alvenaria do corredor, lugar encantado onde os presentes do Natal e de outras datas eram escondidos para que eu não visse, também estava com lodo.

Marca da enchente de 74

A altura que acho que a água chegou na enchente de 74

Marcas de 74

Nos fundos da casa. As janelas do canto eram do quarto dos meus pais.

Pelas marcas que vi dentro da casa, acho que a água chegou mais ou menos nessa altura que assinalei nessas fotos acima, que são detalhes das outras fotos. Pode ser um pouco menos, mas não muito. Imagino o terror de quem estava nas casas, o pavor de ver a água subindo e carregando tudo.

Foi um trabalho penoso, escrever sobre a enchente que matou tantos e causou tantos prejuízos à cidade onde passei a infância. Lamentavelmente, não guardei os jornais com as reportagens e, a esta altura, acho difícil encontrar uma coleção daquela época.

A FOTO DESAPARECIDA

Foi também nessa ocasião que sepultei, por muito tempo, a vontade que eu tinha de ser repórter fotográfico. Fiz muitas fotos para o jornal, que ilustraram as reportagens. Mas um dia, estava perto do campo onde pousavam os helicópteros miltares (ao lado da catedral) e comecei a fotografar um helicóptero que estava chegando. Um muro não me deixava ver o local do pouso. Corri ao redor, até achar um bom lugar e pude ver o exato momento em que o helicóptero, já quase no chão, perdeu força e desabou, caindo pesadamente e virando de lado. E eu ali, clique e clique. Não houve feridos graves, nem explosão ou incêndio (apenas fumaça), mas foi um acidente sério.

E eu tinha, no meu filme, o aparelho no ar e depois no chão. Uma reportagem fotográfica completa, que certamente poderia ser vendida para todos os veículos, inclusive para o meu amigo, o gringo da Associated Press. Revelamos às pressas, na sucursal de O Estado e aí veio a grande supresa: não tinha nada. O filme estava virgem. O foca burro, inexperiente, não tinha engatado direito o filme e ele não avançou. Claro que, a partir daí, assim que retornei a Porto Alegre, aposentei a câmera e desisti de fotografar profissionalmente. Fiquei um bom tempo brabo comigo, com raiva desse incompetente. Ainda não me perdoei completamente, mas já convivemos sem grandes atritos..

Essa falha pessoal não poderia ter ocorrido num momento pior. Ver o que sobrou de Tubarão e ter que contar o que vi e o que consegui saber como se eu não fizesse parte daquele drama, foi uma experência dolorosa por si só. Anos depois eu ainda achava que teria sido melhor se eu não tivesse ido lá como repórter. Mas os jovens são assim. Não pensam muito antes de fazer. E acabam passando por coisas que deixam marcas profundas. Não tão profundas, evidentemente, quanto as marcas que aquela enchente deixou em quem estava lá quando as águas subiram. A esses, muitos dos quais eu conhecia pelo nome, só posso deixar minha solidariedade e votos de que nesses 40 anos tenham conseguido reerguer-se e superar a dor das perdas.

Florianópolis

Amor antigo 12

Fpolis 288

Onde em tarde fagueira Vou ler meu jornal.

23/3/2004

NUM PEDACINHO DE TERRA…

Hoje é feriado em Florianópolis. Comemora-se o aniversário da cidade, que tem lá seus 278 anos. Há uma certa controvérsia sobre a data exata, mas isso é conversa para outra hora. Agora, o que me cabe, como florianopolitano por nascimento e opção, é dar-lhe, caríssima capital do meu coração, amantíssima Ilha dos ocasos raros, dulcíssima Desterro cuja magia ingênua e envolvente penetra na pele a cada rajada de vento sul, os parabéns.

Temos na lembrança aquela cidadezinha pequena e parada, onde nos conhecíamos a todos pelos nomes, pelos apelidos e sabíamos de todos a vida quase inteira. Temos ainda a teimosia de achar que a vida de então era melhor. Nem nos lembramos mais da Elfa, companhia de eletricidade intermitente, que apagava à noite e tremelicava de dia. Esquecemos do pavimento de madeira da velha ponte, liso como sabão em dias de chuva. E apagamos da memória a difícil viagem para qualquer lugar além do Estreito.

Viver de saudade, nos ensina a própria vida, só traz incômodo e desconforto. Mas esquecer o passado nos torna imbecis. A dosagem certa, sabedoria difícil de obter, permite alcançar um estado de graça que nos enche de felicidade sempre que, nos dias luminosos de outono, a Ilha se mostra sedutora e bela como deveria ter sido a Terra inteira, logo depois da criação.

Aqui neste pequeno espaço deste universo de sinapses (como nos ensinou O Globo ontem), queria materializar minha homenagem em três imagens.

Troféu Manezinho da Ilha

Aldírio e os manezinhos de 2003

Primeiro, a turma de Manezinhos da Ilha de 2003, Aldírio Simões à frente. Com a morte dele, encerra-se uma fase de afirmação de alguns dos nossos valores. Brincando, brincando, cresceu a auto-estima, recuperamos amor próprio, passamos a acreditar que não era preciso render-se, sem luta, ao invasor.

Praça XV

Jardim da Praça XV

Depois, o Jardim Oliveira Belo, na Praça XV, recanto de belas árvores, oásis a nos lembrar o valor da sombra, a importância da calma e lembrete do que perdemos ao trocar árvores por cimento e asfalto.

Ponte Hercílio Luz

Ponte Hercílio Luz

E finalmente, o cartão postal por excelência. A ponte Hercílio Luz. Monumento inútil. Esqueleto sem vida. Sem outra função senão a de posar para fotografias até que os olhais terminem de enferrujar e tudo desabe. Ou até que alguma alma criativa e lúcida a substitua por outra, nova, igualmente imponente, talvez ainda mais bonita e principalmente viva e útil, para uma pobre cidade cujos habitantes já começam a perder muito do seu tempo precioso, parados aguardando a vez de ir e vir.

Espero que todos aproveitem bem o feriado. E que a cidade nos acolha, na quarta-feira, com a generosidade e amor maternal de sempre. Parabéns também pra todos nós, que vivemos aqui.

Florianópolis

Amor antigo 11

Fpolis 288

Ilha da velha figueira

Forte de São José da Ponta Grossa

Foto Lúcia Valente/Palhares Press

4/1/2004

PROSA DOMINGUEIRA

Quando o primeiro bando de paulistas quebra as primeiras placas de sinalização na primeira praia e espanca quem os tenta impedir, a gente sabe que a temporada de verão em Florianópolis começou. Quando a conta do restaurante habitual, mesmo com a pedida de sempre, quase dobra de valor, a gente sabe que a temporada começou. Quando as ruas engarrafam inexplicavelmente e é preciso montar esquemas especiais para ir e vir, a gente sabe que a temporada…

Pobre Florianópolis

Cidade de veraneio que não nasceu pra isso. Tratam-na como se fosse assim uma Balneário Camboriú, que cresceu exclusivamente em função do verão e do pessoal que chega no verão. Florianópolis é apenas uma cidadezinha pacata, habitada por criadores de curiós, pescadores de tarrafa, contadores de histórias e funcionários públicos. Não está preparada para ser o objeto de cobiça de um país inteiro. Muito menos de um País do tamanho do Brasil.

A cidade está dividida entre os que esperam ansiosamente pelo verão, meses escassos de calor em que poderão tirar o pé da lama, ganhando o dinheiro que os sustentará no restante do ano e aqueles que não agüentam ver essas hordas de veranistas pra lá e pra cá, com seus carros cheios de gente e tralha, suas infinitas latas de cerveja, seu som alto, seu desrespeito pelos anfitriões.

Pobre Florianópolis

Estou também dividido, porque não sei se torço para que chova e faça frio o verão inteiro ou se quero receber os amigos, que sempre vêm, com o sol e o mar que sempre tivemos. Fosse rico, poderia fugir daqui nesta época. Ir para alguma dessas cidades que ficam vazias no verão. Para o lugar de onde sai essa gente toda que se atropela nas praias e ruas de Florianópolis.

Talvez fosse uma boa instituir a reciprocidade, tal como preoconizada pelo juiz que mandou fichar os americanos. Cada vez que um turista fizer xixi no meio da rua na Lagoa, alguém vai a Sorocaba fazer xixi na frente da casa dele. Cada vez que um vândalo arrebentar placas, jogar papel no chão e derrubar luminárias, alguém vai a Ponta Grossa ou que outra cidade seja, dar-lhe o troco. Cada vez que um carioca estacionar sobre a calçada, alguém vai ao Rio…

Mas é claro que isso não vai adiantar, porque esse pessoal que não nos respeita, também não está nem aí para a cidade deles. Falta-lhes, como a tantos, em tantos países, educação para a vida em sociedade. Muitos movem-se com o mesmo combustível que inicia as guerras: a intolerância assentada numa base sólida de ignorância.

Pobre Florianópolis

Ainda bem que a temporada este ano é mais curta: o Carnaval é em fevereiro. Só precisamos sobreviver mais uns 52 dias.

Florianópolis

Amor antigo 10

Fpolis 288

Da velha rendeira, tradicional

Jurerê

Foto: Cesar Valente/ Palhares Press

18/3/2003

A VERDADEIRA ALTA TEMPORADA

Por Cesar Valente,
conselheiro turístico informal, daqueles que se mete onde não foi chamado*

O calendário e os turistas nem sempre sabem tudo que acham que sabem. Pelo calendário, a melhor época para visitar Florianópolis é o verão e a melhor época para visitar Blumenau e outras regiões, digamos, “temáticas” é em outubro. Ledo engano. Passarei a seguir a expor minha tese.

Verão em Florianópolis, tirante o fato de estar cheia de turistas, significa calor em excesso, chuva em excesso ou em falta (o que gera problemas de igual gravidade, embora diferentes em sua essência), céu coberto por nuvens em excesso.

Outubro nas cidades de colonização alemã que realizam as tais festas étnicas, tirante o fato da superlotação de turistas, significa barulho em excesso, cariocas fazendo xixi na rua, paulistas fazendo xixi nos cariocas e todos, em algum momento, vomitando no meio-fio logo depois da briga.

Outono em Florianópolis, tirante o fato de ter vaga em todos os hotéis e restaurantes, significa temperatura muito agradável, céu impecavelmente azul, com chuvas escassas e suaves e mar calmo. Essa combinação gera paisagens deslumbrantes onde quer que se olhe, do sul ao norte, do nascer ao por do sol. E ninguém pode dizer que acha a ilha de Santa Catarina o máximo se não a visitou no outono. Em maio, para ser mais preciso.

Tirante outubro por causa das festas e o verão por causa do calor (50° em média), as cidades “temáticas” (para usar a terminologia dos parques de diversão norte-americanos) de Santa Catarina podem ser vistas como enorme fonte de alegria e prazer. Alegria porque elas fazem parte daquilo que queremos para todo o País (como disse Tutty Vasques). Lugares em que o trabalho tem valor. O jardim da frente de casa tem valor e um chão bem encerado também tem seu valor. E prazer porque podemos visitar uma espécie de sucursal de países estrangeiros adaptados aos trópicos, sem grandes despesas e sem ter que viajar longas distâncias.

Nos casos de Florianópolis e de cidades como Blumenau, Joinville, Brusque, Treze Tílias (tem várias outras), portanto, fugir do calendário oficial e das recomendações “turísticas” pode levar a grandes descobertas e a um passeio reconfortante.

O turista fora de época gasta a metade que gastaria em janeiro ou fevereiro, encontra as praias mais bonitas praticamente desertas, até entra n’água, porque ainda não faz frio e consegue fazer o que a gente quando tira férias sempre pretende mas geralmente não consegue: descansar.

* O repórter não viajou a convite de nenhuma prefeitura, não ganhou sequer um pastel de berbigão de presente e corre o risco de ser citado, pelo sindicato sei lá do que, de persona non grata em bocas livres turísticas, por estar afugentando os “clientes” da alta temporada oficial.

Florianópolis

Amor antigo (bonus)

Fpolis 288

Poema ao luar…

O hino de Florianópolis

Rancho de Amor à Ilha

Cláudio Alvim Barbosa

Um pedacinho de terra, perdido no mar!…
num pedacinho de terra, beleza sem par!…

jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar
num pedacinho de terra,
belezas sem par.

Ilha da moça faceira
da velha rendeira tradicional
ilha da velha figueira
onde em tarde fagueira,
vou ler meu jornal

tua Lagoa formosa,
ternura de rosas
poema ao luar

cristal onde a lua vaidosa
sestrosa, dengosa,
vem se espelhar.

Florianópolis

Amor antigo 9

Fpolis 288

Ilha da moça faceira

Santo Antônio de Lisboa

Foto: Cesar Valente/ Palhares Press

9/1/2003

ESQUIZOFRENIA ILHOA (ou o samba do ilhéu doido)

Todo verão, com algumas variações, renasce uma velha pendenga* na Ilha de Santa Catarina. Filhas legítimas da nossa vocação para aldeia açoriana isolada, quieta, parada no tempo, Florianópolis e as demais povoações da ilha** sofrem com o assédio dos estrangeiros. Quem chega admira-se com as belezas naturais e quer ficar, quer voltar sempre e a fama corre mundo. E a aldeia açoriana que vive em cada um dos habitantes nascidos aqui sente-se mal com a notoriedade, desconfortável por não conhecer, pelo nome, cada uma das pessoas que encontra na rua.

Tornar-se um destino turístico de grande procura e fácil acesso é a pior coisa que pode acontecer para uma aldeia açoriana. O futuro, que não está longe, vai mostrar que a aldeia acabou, que os estrangeiros venceram e que os nativos, tal qual os indígenas, foram escorraçados para guetos, onde definham até liberar a área, completamente, para a instalação da grande colônica temática de férias em que a Ilha de Santa Catarina tem se transformado a cada verão.

Outro problema sério, que amplia as aflições açorianas e as lamentações a que o sangue luso nos obriga, é a quantidade de turistas que ficam por aqui mesmo. Compram um terreninho, ou dois, ou dez (como os argentinos, há mais de dez anos), instalam seus consultórios, lojas, escritórios (como gaúchos e paulistas). E vão atraindo conterrâneos e compatriotas.

Os descendentes de italianos, alemães, austríacos, poloneses, japoneses e outras tantas nacionalidades, que vivem no interior do estado, quando vêm à Capital estudar, também não voltam mais. Até os deputados estaduais compram apartamentos, instalam suas famílias e residem aqui durante e depois dos mandatos. E vão às bases apenas de visita.

Com a grande invasão de jornalistas gaúchos de 1971 (chamados pelos donos de jornais para conduzir a modernização da imprensa catarinense***), o mané aqui passou a ser minoria em mesa de bar de jornalistas. Com outras profissões e atividades essa inversão deu-se mais tarde, décadas depois. Mas duvido que hoje exista algum grupo, na mesa de qualquer bar, composto apenas de nativos.

E estas observações não são xenófobas. São apenas a expressão verbal daquele conflito que nos vai n’alma: a aldeia açoriana, quase um claustro, e a vida mundana, cosmopolita. Ao mesmo tempo em que reclamamos quando algum jornal em algum país fala mal de Florianópolis ou de algum de seus filhos, reclamamos porque jornais de vários países falam sobre Florianópolis e seus filhos. A gente não gosta de propaganda, mas a gente odeia ser desconhecido. A gente não conseguia pronunciar direito “Florianópolis”, chamava de fpólis ou de floranóplis. Mas odiou quando algum gaúcho ou paulista simplificou para “Floripa”, palavra até hoje usada muito mais pelos estrangeiros do que pelos locais.

A gente quer ser famoso, mas não quer receber visitas. A gente quer que todos achem que esta é a verdadeira cidade maravilhosa do mundo, mas a gente não quer que o movimento de turistas atrapalhe a nossa rotina ou apresse nosso passo. A gente não admite preparar a cidade para quando tiver um milhão e habitantes ou mais, porque acha que é melhor explodir as pontes, expulsar os estrangeiros e manter o número de habitantes para o qual a cidade está preparada, que não deve ser superior a 50 mil.

Mas a gente gosta de ser moderno, de ter as facilidades das grandes cidades e quer a todo momento sentar-se à frente da casa, na calçada, para tomar a fresca da tarde ou da noite, cumprimentando pelo nome – e a seguir falando mal dela e de toda a família – todas as pessoas que passam.

O fim dessa história já está escrito e eu não vou estragar o suspense contando-o a quem ainda não sabe ou nem imagina. Não é um final feliz, mas também não será o fim do mundo. Também pode ser que eu, como mané legítimo, neto do Luiz Gonzaga Valente, que tinha as odiadas lanchinhas que faziam a travessia ilha-continente antes da construção da ponte, esteja exagerando no pessimismo.

Os usuários das lanchas do seu Valente achavam aquilo um atraso e queriam uma ponte. Logo depois de construída a ponte, começaram a ver que as mudanças que ela traria, iriam acabar nessa Florianópolis de hoje, irreconhecível como aldeia açoriana. E todo ano alguém fala em dinamitar as pontes (hoje são três). E fechar o aeroporto. E exigir controle alfandegário para as lanchas que chegarem do continente.

Ao mesmo tempo, quase no mesmo parágrafo, falam em ampliar o aeroporto, construir mais uma ponte para desafogar o trânsito e enviar missões ao exterior para divulgar a maravilha que é fazer turismo na ilha de Santa Catarina. No dia seguinte tudo recomeça.

No meu carro, que tem placa de São Paulo, tive que colocar um aviso, bem grande: “Sou mané, só meu carro é que não é”. Porque já estava cansado de ouvir, pelas ruas da cidade, “volta pra tua terra!”, sempre que ultrapassava alguém ou ficava na frente de alguém ou ao lado de alguém ou reduzia a marcha para estacionar (situações inevitáveis, quando se está trafegando em via pública). Assim que saio do carro, contudo, sou tratado com grande cortesia e respeito, porque, afinal, um paulista é um paulista e eles têm dinheiro e ainda bem que eles estão vindo pra cá e não para o nordeste e todas essas coisas. Quando digo que sou daqui mesmo, a gentileza assume uma face bem mais indiferente e fria: “se qués, qués, se não qués, diz” (caso o leitor ou a leitora não conheça o sotaqe ilhéu, deve substituir os esses e zês finais por um xis, parecido com o que os cariocas usam).

A minha aldeia açoriana, onde ainda encontro paz e sossego, só existe no passado. Vou lá de vez em quando para descansar. E é uma maravilha, porque não existem ainda pontes que levem ônibus e aviões de turistas ao passado. Muito raramente aparece um ou outro caixeiro viajante, um ou outro militar transferido, um ou outro estrangeiro, como o Zé Peri (Saint-Exupéry) piloto do aviãozinho do correio que faz escala ali no Campeche. Uma bela aldeia. Cercada pelo mar, onde a gente joga as fezes, as tripas dos peixes e toda a sujeira. Graças à proximidade do mar e de sua brisa, a aldeia é limpa e a temperatura, agradável.

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Notas:

* Velha pendenga não é, como pode parecer, uma senhora idosa com algum problema que a faça claudicar (ou mancar). Velha pendenga é uma discussão antiga. Só.
** O nome correto é Ilha de Santa Catarina. Florianópolis é só o município, cuja extensão inclui a ilha e uma área continental. Não existe Ilha de Florianópolis.
*** Naquele ano foi criado, em Blumenau, o Jornal de Santa Catarina, hoje pertencente ao grupo RBS e no ano seguinte o jornal O Estado, de Florianópolis, ganhou rotativa off-set, nova redação e novo projeto gráfico.

Florianópolis

Amor antigo 8

Fpolis 288

Teve tanto pra cantar!

R. Felipe Schmidt

Foto Cesar Valente/Palhares Press

10/12/2002

TARADO, EU?

Só quem já ficou, um dia, parado na Felipe Schmidt, encostado na parede, perto de algum fusca com aquelas calotas esféricas cromadas, vai saber do que estou falando. Porque houve um tempo, no século passado, em que a Felipe Schmidt era uma rua como qualquer outra, onde os carros passavam e estacionavam. E tinha calçadas, como tantas ruas. E, aí é que está a maravilha, por essas calçadas passavam alunas do colégio Coração de Jesus, com suas saias plissadas. Não sei qual foi o tarado que descobriu, mas as calotas dos fuscas refletiam muito bem. Eram bem cromadas e muitos dos donos mantinham os carros bem limpos. E vários deles estacionavam ao longo das calçadas da Felipe Schmidt.

Nos dias de vento nordeste ou de pouco vento, as calotas dos fuscas funcionavam direitinho. Ficava aquela fila de garotões encostados nas paredes da papelaria Record, ou de qualquer outra, mais adiante (o que é que era mesmo ali onde hoje é a Kilar?), até a Az de Ouro. O terminal de ônibus era no Largo Fagundes (ao lado de onde hoje é a Americanas). E elas tinham que ir pela Felipe Schmidt até ali.

Nos dias de vento sul nem precisava das calotas. A Felipe Schmidt foi cientificamente construída de tal maneira que o vento sul encana, rebate nas construções dos dois lados e forma uma corrente ascendente. Não há saia que resista. Muito menos saias plissadas. E as meninas tinham que segurar a pasta e tentar manter as saias no lugar, usando apenas duas mãos. Isso quando o vento não desmanchava os cabelos e o dilema aumentava: segurar a saia ou o cabelo?

Outro sucesso, mais ou menos nessa época, eram os DKW Vemag. Bons carros, com motor de dois tempos, abriam as portas da frente pela frente. Pois bem, tinha malandro que ficava de olho quando passava um DKW dirigido por uma mulher. Assim que ela parasse, num posto de gasolina ou em outro lugar e precisasse sair do carro, se estivesse de saia ou vestido certamente daria um showzinho. Não tinha como sair do carro, com a porta abrindo desse jeito, sem mostrar as pernas. Veja bem, estamos no final da década de 60, época em que um joelho aparecendo ainda tinha seu valor. Acho que a fábrica percebeu a que estava expondo suas clientes e logo mudou a abertura das portas. Aí o carro perdeu a graça.

E já que estamos nesses assuntos profanos, vamos adiante. Motel é coisa recente. O Meiembipe só abriu em abril de 1974 (lembram?). Antes disso, cada um se virava como podia. Um dos melhores lugares para estacionar o fusca (todo mundo tinha fusca naquela época, aliás, só tinha fusca, naquela época) era ali onde hoje é o Jurerê Internacional. Da estradinha deserta que levava ao forte saíam, em direção ao mar, inúmeras “picadas” abertas na vegetação litorânea cerrada. Privacidade, contato com a natureza, a lua e o barulho do mar. Queres mais?

Até que começaram a acontecer assassinatos nuns matinhos perto da Universidade e a gente percebeu que o paraíso estava terminando. Em 1976 a Felipe Schmidt virou calçadão. E essa Florianópolis das saias plissadas, das calotas de fusca e das praias desertas passou a ser apenas um retrato na parede. Mas, como dói.

DKW e VW

Lembras disso?

Florianópolis

Amor antigo 7

Fpolis 288

Jamais algum poeta

Ponte Hercílio Luz

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

24/11/2002

ILHA DA MAGIA. MAGIA?

Na sexta encontrei Rosane Porto no bistrô do Flávio Sturdze e da Grace Dias (Monsieur Cognac, na Lagoa). Rosane é jornalista, professora na Unisul, e a nossa enviada especial ao Continente. Mora, trabalha e vive do lado de lá da ponte. Sempre que a gente se encontra ela cumpre sua função de correspondente, contando como é a vida lá. Kobrasol, São José, Palhoça, Barreiros, Biguaçu, formam um País que muitas vezes é ignorado ou esquecido por quem vive na Ilha (e, de certa forma, esta é a idéia: ilhar-se). Só que certamente já tem mais habitantes que aqui, escolas de todos os níveis, comércio e serviço de todos os tipos. E continua crescendo.

A vitalidade do Continente, parece, está muito ligada ao fenômeno do “vou para Florianópolis” que tem ocorrido com inúmeras famílias paulistas e cariocas. Não é difícil encontrar prédios residenciais totalmente ocupados por moradores que vieram há pouco tempo (menos de dez anos) para cá.

E em muitas das famílias, alguém vive na ponte aérea Hercílio Luz-Congonhas. Porque a região (ilha inclusive) não tem uma economia que consiga absorver e dar remuneração adequada a todos. Quem tem um emprego ou fonte de renda razoável fora, não pode abandonar, porque não consegue coisa semelhante aqui. Mesmo que baixe significaticamente suas expectativas e seu nível de vida.

A enorme propaganda positiva que Florianópolis tem recebido faz com que muita gente ache que vindo para cá – como se trata de um paraíso – encontrará um lugar seguro, tranqüilo, bonito, cheio de gente interessante, onde poderá viver com metade do que vive em São Paulo e certamente viver por muito mais tempo que lá. Isso é verdade só em parte.

Segurança

Como gostam de dizer as autoridades policiais locais, para justificar seus insucessos, “tá vindo gente boa, mas também tem vindo muita gente que não presta”. Ou seja, temos todos os “produtos” que as grandes cidades têm. Aqui tem assalto a mão armada dentro de ônibus, seqüestro relâmpago, tiroteios em zona de traficantes, assassinatos por motivos banais, furtos, roubo de carros, roubo a bancos e caixas eletrônicos, a lista completa. Instalaram, em algumas esquinas do centro, aquelas câmeras de vigilância, para inibir a ação dos ladrões e ampliar um pouco mais a ação da polícia. Mas é preciso estar atento da mesma forma que nas demais cidades grandes.

Beleza

A natureza foi muito generosa com Santa Catarina e por décadas o homem (e a mulher) fizeram muito esforço para devolver o presente. Cada vez que alguém construía uma casa à beira mar, não tinha a menor dúvida, puxava uma canalização de esgoto direto até a praia. Era assim na ilha e no continente. A preocupação com a “balneabilidade” é coisa mais ou menos recente. Decerto depois que algum argentino reclamou de ficar nadando ao lado dos “marinheiros” (que era como conhecíamos os troços que ficavam boiando).

A ilha tinha uma pequena rede de esgotos que atendia o centro, feita no começo do século passado, mas, até onde sei, sem estação de tratamento. Hoje a rede é maior, o continente também tem algumas áreas cobertas, com estações de tratamento. Só que ainda está longe de coletar 100% do esgoto sanitário (no estado todo, segundo a senadora recém-eleita Ideli Salvatti, “só 6,8% das residências têm esgoto tratado”). As fossas, em grande parte das residências, ainda têm suas saídas ligadas à rede de esgoto fluvial.

Das 42 praias, um número grande só serve mesmo para aparecer na lista e nas fotografias. Muitas daquelas em área de baía, com águas tranqüilas, boas para levar crianças pequenas, estão impróprias para o banho. Veja aqui os boletins da Fundação do Meio Ambiente, com as condições das praias de Santa Catarina. A foto de cima mostra uma das praias do Ribeirão da Ilha e a de baixo, um dos Ganchos, em Governador Celso Ramos. As duas, segundo o último boletim da Fatma, de 30 de outubro, estão boas para o banho.

Subsistência

Morar em Florianópolis, de fato, não é pior que morar em Porto Alegre, Curitiba, Rio ou São Paulo. Mas trabalhar e ganhar a vida aqui é muito mais complicado. Primeiro porque é uma cidade cuja economia tradicionalmente girava em torno do funcionalismo público. Durante muitos anos, ser a sede do governo foi a única fonte significativa de renda da cidade. Isso tem mudado, para pior: os governos estão encolhendo, os salários de seus funcionários estão reduzindo (tecnicamente “não aumentando”) e as privatizações estão cumprindo sua parte nesse processo.

A região não tem um parque industrial forte. E o turismo, atividade que poderia dar algum suporte econômico e emprego, tem na realidade três ou quatro meses (dependendo das chuvas e de quando cai o Carnaval) de atividade a plena carga e o resto do ano quase pára. Estamos bem mais ao sul que a Bahia e o Ceará. Aqui as águas do mar são renovadas por correntes que vêm da Patagônia. A gente costuma dizer que em maio e novembro só quem entra na água são os paulistas e os gaúchos (os argentinos, quando vinham, apareciam só no verão mesmo). Isto amplia um pouco a temporada. Mas não resolve, porque nos demais meses só surfista com roupa de neoprene de tripla espessura consegue encarar as ondas.

Mesmo na temporada, a coisa não é fácil. Os navios de cruzeiro, que poderiam fazer escalas aqui, despejando cerca de mil turistas de cada vez, para dar uns passeios e comprar alguns recuerdos, têm dificuldades porque as autoridades locais não conseguem se acertar sobre a construção de um atracadouro, ou de uma estação alfandegada de recepção, essas coisas.

Largar tudo em São Paulo e mudar-se para Florianópolis é ato de desespero que beira o suicídio ou a falência, não necessariamente nesta ordem. Por isso os vôos de Congonhas na sexta e do Hercílio Luz na segunda estão permamentemente lotados. Mesmo os ônibus (que levam cerca de 11 horas) estão lotados. Gente que instalou a família em Florianópolis mas continua trabalhando em São Paulo.

Hospitalidade

Conta a lenda que o povo é bom, gentil e hospitaleiro. É verdade, mas também em parte. Os pescadores e a gente mais simples, de fato, é muito generosa, no seu jeitão açoriano de ser. Falam rápido, não é fácil entender o dialeto local, e são desconfiados no princípio, como a maior parte da gente simples de todos os lugares do País onde existe gente simples. Muitos deles ascenderam economicamente e continuam do mesmo jeito. Boas praças, bons amigos, bons caráteres. Mas tem uma “raça” de classe média que é extremamente invejosa e raivosa. Morei em São Paulo por seis anos, até o final do ano passado e meu carro ainda tem placa de São Paulo. Pois não é que já fui xingado na rua por ser “paulista”? Parece que há um sentimento de frustração cuja manifestação externa mais comum é hostilizar quem, tendo nascido fora daqui, “ousa” dar-se bem ou apenas viver “na nossa cidade”.

Fiz todas essas reflexões, aqui, a partir dos comentários da Rosane Porto sobre o crescimento do Continente. E elas acabaram, no entusiasmo desta manhã de domingo, inundada pelo sol incomparável da primavera florianopolitana, temperada pela brisa do mar, transformando-se quase num libelo: parem de vir pra cá. Mas eu, que vivo indo pra lá (já morei e trabalhei em Porto Alegre, São Paulo e Brasília), não gostaria de desanimar ninguém que queira vir. Talvez, quem sabe, apenas aconselhar a que pense bem.

Florianópolis

Amor antigo 6

Fpolis 288

Reuniu tanta beleza

Praia do Campeche

Foto: Cesar Valente/Palhares Press

14/10/2003

A DURA VIDA DOS ILHÉUS

A Ilha de Santa Catarina é um local acolhedor e seus nativos são hospitaleiros. E esta tem sido, por séculos, a nossa ventura e a nossa desgraça. Invadidos ciclicamente por estrangeiros que em pouco tempo sentem-se em casa, temos desenvolvido, ao longo dos anos, defesas tênues e engendrado vinganças pífias, que não conseguem afastar ninguém. Ao contrário, parecem adicionar ao nosso comportamento um charme rústico.

Sempre que recebemos visitantes, costumamos fazer algumas advertências e dar informações básicas. Raramente isto adianta alguma coisa, porque logo que alguma praia, algum entardecer, alguma montanha à beira-mar lhes enche os olhos, os visitantes param de ouvir-nos. E mergulham embevecidos nessa aventura cada vez mais cobiçada, que é viver na Ilha.

Mas não custa tentar mais uma vez. Em primeiro lugar, caros recém-chegados, o nome da ilha é Ilha de Santa Catarina. Nela situam-se a cidade de Florianópolis e várias localidades. Antigamente ainda cabia fazer uma detalhada resenha histórica sobre a colonização e formação desse povoado, mas modernamente isso tem sido abreviado e sintetizado: aqui moram os manezinhos, cada vez em menor número e gaúchos, paulistas, brasileiros de outros estados e argentinos cada vez em maior número.

A colonização açoriana e o jeitão português de ser, que nos enchem de orgulho, têm servido também para que vizinhos invejosos e outros visitantes de pouca cultura façam chacotas. Riem-se do jeito com que falamos, rápido, com s chiado, com melodia própria. Riem-se das expressões que usamos. Riem-se de qualquer coisa, mas não saem daqui. Instalam-se, trazem a família e levam seu chimarrão escaldante para refrescar-se sob um sol de 40° na praia.

Tentaram chamar-nos, pejorativamente, de manés. Manezinhos. E acabamos conseguindo reverter o tom da palavra. Hoje, ser Manezinho da Ilha é título honorífico, que nem todos podem ostentar. Ser Manezinho significa mais do que conhecer a história e a tradição locais, significa ter vivido essa história e honrado essa tradição.

Para os Manezinhos que trabalham em assessorias de imprensa em Florianópolis*, os tempos têm sido duros. Os veículos parecem ter desenvolvido um código de honra: só empregam gente de fora. É um tal de trocar nome, confundir endereços, ignorar precedências e desrespeitar hábitos e costumes, que a gente nem estranha mais.

Além de informar sobre o fato, o evento ou o acontecido, temos sido “assessores especiais para a integração do repórter perdido que acabou de chegar”. E este, como os outros, não irá mais embora. Ficará, apaixonado pela Ilha, pela cidade, pelas manezices. E achando graça, no final, quando a gente fala, a sério, que um dia ainda vamos dinamitar as pontes, soltar as amarras e afastar-nos para uma distância segura do Continente.

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* A referência aos assessores se justifica: esta crônica foi publicada no jornalzinho do Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Comunicação, realizado dia 9 de outubro de 2003 em Florianópolis. O encontro, que recebeu na pia batismal o horroroso nome de 14º Enjac, foi promovido pela Fenaj e pelo Sindicato dos Jornalistas local.

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