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Eleições 2010

Coincidência na cabeça!

Cheguei, abri o computador, comecei a dar uma olhada nos blogs e vi, no Canga, uma foto bem típica de período eleitoral: o santinho de um candidato (geralmente ligado à polícia), sendo distribuído junto com o resultado do jogo do bicho (veja aqui a nota “Venda casada”).

Daí abri a minha caixa postal e vi a mensagem de um leitor aqui do blog, contando um outro capítulo da mesma história. Achei muita coincidência e anotei uns numerinhos, pra fazer uma fezinha.

Ah, e a maravilha é que dá pra fazer jogo do bicho no próprio guichê das lotéricas da Caixa. Já presenciei, em duas delas, a pessoa que estava na minha frente pagar suas contas, jogar na megasena e também jogar ou pegar resultado do bicho. Antigamente, o bicho tinha uma portinha ao lado da lotérica, meio que pra não misturar as coisas. Mas agora parece que liberou geral. Integração com a contravenção é isso aí.

Olhaí o bilhete do leitor:

“Olá,Cesar. Durante o período eleitoral a gente vê cada coisa que até Corregedor de Polícia duvida, ou não. Todas as motos que circulam rapidamente pelas ruas de todos os bairros da Grande Florianópolis, recolhendo as apostas do nosso velho jogo do bicho, estampam adesivos do licenciado Delegado Geral da Polícia Civil de Santa Catarina Maurício Eskudlark. Os bicheiros fecharam com ele do primeiro ao quinto. É o candidato do Zoô. Tá certo, só que na loteria não tem tucano, tem águia. E assim caminha a humanidade se arrastando pelas paredes. É isso áí, bicho. E viva o “não tô nem aí” Salve a nossa fauna!
Abraços,Cesar.”

Bom, se isso for uma sórdida campanha para manchar o nome do ínclito candidato, então é um escândalo. Mas se não for, é um escândalo maior ainda. Ô gente sem noção!

Tolices

O caso da senha “de brincadeirinha”

Depois de ler o noticiário sobre a quebra de sigilo de contribuintes na Receita Federal, resolvi ter uma conversa séria com a minha gerente, no banco.

– Dona Gerente, bom dia. Trata-se do seguinte, alguém tirou dinheiro da minha conta e eu preciso que o banco me reembolse urgentemente.

– Oh, isso é grave. Como é que tiraram o dinheiro da sua conta?

– Alguém pegou a minha senha e fez a retirada.

– Um roubo, ou um sequestro relâmpago, o que houve?

– Não, eu não sei, alguém usou a minha senha sem eu saber. Preciso que o banco reponha esse valor subtraído. E rápido, pra não entrar no cheque especial.

(passam-se alguns dias)

– Seu Cesar, verificamos as imagens do caixa automático e o senhor aparece fazendo a retirada que o senhor diz que não fez.

– Infâmia, como vocês afirmam algo que não podem provar!

– A gente pode provar, tem a imagem da câmera…

– Em todo período eleitoral sempre aparece alguém querendo tumultuar o processo. Isso de dizer que só porque tenho a senha de acesso da conta fui o responsável pela retirada é uma irresponsabilidade. Pois eu acho que foi o banco que fez a retirada, justamente para me incriminar. Eu sou apenas uma vítima do capital transnacional e dos desmandos do governo FHC. Que, por falar nisso, privatizou todas as riquezas brasileiras a troco de banana!

– Pois é, mas quem retirou o dinheiro foi o senhor.

– De maneira nenhuma! Não vou permitir que essas manobras dos banqueiros golpistas venham conspurcar meu bom nome. Ou vocês devolvem o dinheiro retirado indevidamente, por interpostas pessoas, da minha conta, ou…

– Deu. Já chamei a polícia. O senhor se explica com eles. Até mais.

Putz, não deu certo. Mas como é que com eles sempre dá certo? Tem até gente defendendo os pobres petistas!

“Ninguém provou que o PT tem alguma coisa a ver com isso. Pode ser alguém do PSDB que se infiltrou. Viram que não vão levar no voto, querem levar no tapetão!”

O secretário da receita foi indicado pelo governo e é mantido pelo governo. Os principais cargos foram providos pelo governo (ou, pelo menos, pelo esquema sindical que se nutre do governo). O PT tem sido competentíssimo em ocupar os espaços estratégicos do governo. Tiveram oito anos para isso e até criaram uns tantos cargos comissionados novos. E aí querem fazer-nos acreditar que deixaram nas mãos do PSDB justamente uma área sensível como a Receita Federal? Uau! E como é que um partido com todo esse poder e essa gente infiltrada não consegue resultados melhores nas pesquisas? Fantástico!

A culpa, então, da violação do sigilo de algumas dezenas de pessoas, poderia ser da oposição? Tá, e o governo, que não controla seus servidores e permite essa invasão absurda, não tem responsabilidade sobre nada? Coitados dos petistas. Preferem ser chamados de ingênuos, incompetentes e burros, a admitir que alguns dos seus são desonestos ou corruptos? E insistem, oito anos depois, que a culpa de tudo é dos onipresentes e todo-poderosos tucanos? Burros. Por que não substituíram esses tucanos malignos por petistas de confiança, nos cargos comissionados das áreas mais sensíveis?

Bom, bricadeiras e sarcasmo à parte, o fato é que estão desmoralizando uma ferramenta de segurança essencial para qualquer sistema: a senha. A senha, que existe e foi criada para assegurar que determinada pessoa entrou no sistema a tal hora de tal dia e ficou remexendo nos dados por tanto tempo, agora perdeu sua validade. Pode ter sido emprestada, roubada, cedida. E a dona ou dono da senha não pode ser acusado ou responsabilizado de nada.

Claro, se a gente tentar aplicar o mesmo golpe com o gerente do banco, como vimos acima, não vai colar. Mas na receita e em outros órgãos federais de grande credibilidade, tudo bem. O pessoal é compreensivo. E burro. Ou mais esperto do que a gente imagina.

Jornalismo

Como calar e intimidar a imprensa

Eu ia simplesmente escrever umas linhas sobre o caso e colocar o link para que os interessados pudessem ir ler o original lá no Observatório da Imprensa. Mas não se trata de um caso comum nem de um assunto distante de nós. É grave e, em certa medida, assustador, porque se trata de um filme que de vez em quando passa por aqui também (ou vocês não lembram de nenhum caso recente de gente rica e conhecida tentando encobrir ou amenizar malfeitos de familiares?). Aí optei por puxar o tijolão pra cá na íntegra.

Munam-se de tempo e indignação, porque vale a pena enfrentar esse metro e meio de bom texto. Além de informar sobre o fato, com enorme respeito pelos leitores e leitoras, o velho Luiz Cláudio Cunha (a cuja geração me orgulho de pertencer) também ensina os jovens jornalistas a escrever.

Ah, quem me chamou a atenção para o artigo foi o Aldo Grangeiro. Obrigado, Granja. E para acompanhar o jornal Já, que é a vítima dessa ação, clique aqui.

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JORNAL JÁ

Como calar e intimidar a imprensa

Por Luiz Cláudio Cunha em 31/8/2010

“Quando o mal é mais audacioso, o bem precisa ser mais corajoso.”
(Pierre Chesnelong, 1820-1894, político francês

Agosto, mês de cachorro louco, marcou o décimo ano da mais longa e infame ação na Justiça brasileira contra a liberdade de expressão.

É movida pela família do ex-governador Germano Rigotto, 60 anos, agora candidato ao Senado pelo PMDB do Rio Grande do Sul e supostamente alheio ao processo aberto em 2001 por sua mãe, dona Julieta, hoje com 89 anos. A família atacou em duas frentes, indignada com uma reportagem de quatro páginas, publicada em maio daquele ano em um pequeno mensário (tiragem de 5 mil exemplares) de Porto Alegre, o JÁ, que jogava luzes sobre a maior fraude da história gaúcha e repercutia o envolvimento de Lindomar Rigotto, filho de Julieta e irmão de Germano.

Uma ação, cível, cobrava indenização da editora por dano moral. A outra, por injúria, calúnia e difamação, punia o editor do JÁ e autor da reportagem, Elmar Bones da Costa, hoje com 66 anos. O jornalista foi absolvido em todas as instâncias, apesar dos recursos da família Rigotto, e o processo pelo Código Penal foi arquivado. Mas, em 2003, Bones acabou sendo condenado na área cível ao pagamento de uma indenização de R$ 17 mil. Em agosto de 2005 a Justiça determinou a penhora dos bens da empresa. O JÁ ofereceu o seu acervo de livros, cerca de 15 mil exemplares, mas o juiz não aceitou. Em agosto de 2009, sempre agosto, quando a pena ascendera a quase R$ 55 mil, a Justiça nomeou um perito para bloquear 20% da receita bruta de um jornal comunitário quase moribundo, sem anúncios e reduzido a uma redação virtual que um dia teve 22 jornalistas e hoje se resume a dois – Bones e Patrícia Marini, sua companheira. Cinco meses depois, o perito foi embora com os bolsos vazios, penalizado diante da flagrante indigência financeira da editora.

Até que, na semana passada, no maldito agosto de 2010, a família de Germano Rigotto saboreou mais um giro no inacreditável garrote judicial que asfixia o jornal e seu editor desde o início do Século 21: o juiz Roberto Carvalho Fraga, da 15ª Vara Cível de Porto Alegre, autorizou o bloqueio online das contas bancárias pessoais de Elmar Bones e seu sócio minoritário, o também jornalista Kenny Braga. Assim, depois do cerco judicial que está matando a editora, a família Rigotto assume o risco deliberado de submeter dois dos jornalistas mais conhecidos do Rio Grande ao vexame da inanição, privados dos recursos essenciais à subsistência de qualquer ser humano.

O personagem de Scorsese

Afinal, qual o odioso crime praticado pelo JÁ e por Elmar Bones que possa justificar tanta ira, tanta vindita, ao longo de tanto tempo, pelo bilioso clã Rigotto? O pecado do jornal e seu editor só pode ter sido o jornalismo de primeira qualidade, ousado e corajoso, que lhe conferiu em 2001 os prêmios Esso Regional e ARI (Associação Riograndense de Imprensa), os principais da categoria no sul do país, pela reportagem “Caso Rigotto – Um golpe de US$ 65 milhões e duas mortes não esclarecidas”.

A primeira morte era a de uma garota de programa, Andréa Viviane Catarina, 24 anos, que despencou nua do 14º andar de um prédio na Rua Duque de Caxias, no centro da capital gaúcha, no fim da tarde de 29 de setembro de 1998. O dono do apartamento, Lindomar Rigotto, estava lá na hora da queda. Ele contou à polícia que a garota tinha bebido uísque e ingerido cocaína. Nenhum vestígio de álcool ou droga foi confirmado nos exames de sangue coletados pela criminalística. O laudo da necropsia diz que a vítima mostrava três lesões – duas nas costas, uma no rosto – que não tinham relação com a queda. Ela estava ferida antes de cair, o que indicava que houve luta no apartamento. Um teste do Instituto de Criminalística indicou que o corpo de Andréa recebeu um impulso no início da queda.

No relatório que fez após ouvir Rigotto, o delegado Cláudio Barbedo, um dos mais experientes da polícia gaúcha, achou relevante anotar: “[Lindomar] depôs sorrindo, senhor de si, falando como se estivesse proferindo uma conferência”. Os repórteres que o viram chegar para depor, no dia 12 de novembro, disseram que ele parecia “um personagem de Martin Scorsese”, famoso pelos filmes sobre a Máfia: Lindomar usava óculos escuros, terno azul marinho, calça com bainha italiana, camisa azul, gravata colorida e gel nos cabelos compridos. O figurino não impressionou o delegado, que incluiu na denúncia o depoimento de uma testemunha informando que Lindomar era conhecido como “usuário e traficante de cocaína” na noite que ele frequentava – por prazer e ofício – como dono do Ibiza Club, uma rede de quatro casas noturnas que agitavam as madrugadas no litoral do Rio Grande e Santa Catarina. Em dezembro, o delegado Barbedo concluiu o inquérito, denunciando Lindomar Rigotto por homicídio culposo e omissão de socorro.

Lindomar só não sentou no banco dos réus porque teve também uma morte violenta, 142 dias após a de Andréa. Na manhã de 17 de fevereiro, ele fechava o balanço da última noite do Carnaval de 1999, que levou sete mil foliões ao salão do Ibiza da praia de Atlântida, a casa mais badalada do litoral gaúcho. Cinco homens armados irromperam no local e roubaram a féria da noitada. Lindomar saiu em perseguição ao carro dos assaltantes. Emparelhou com eles na praia vizinha, Xangrilá, a três quilômetros do Ibiza. Um assaltante botou a arma para fora e disparou uma única vez. Lindomar morreu a caminho do hospital, com um tiro acima do olho direito. Tinha 47 anos.

O choque de Dilma

A trepidante carreira de Lindomar Rigotto sofrera um forte solavanco dez anos antes, com seu envolvimento na maior fraude da história gaúcha: a licitação manipulada de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), uma tungada em valores corrigidos de aproximadamente R$ 840 milhões – 21 vezes maiores do que o escândalo do Detran que submeteu a governadora Yeda Crusius a um pedido de impeachment, quase três vezes mais do que os desvios atribuídos ao clã Maluf em São Paulo, quinze vezes maior do que o total contabilizado pelo Supremo Tribunal Federal para denunciar a “quadrilha dos 40″ do mensalão do governo Lula.

Afundada em dívidas, a estatal gaúcha de energia tinha dificuldades para captar os US$ 141 milhões necessários para as subestações que gerariam 500 mil quilowatts para 51 pequenas e médias cidades do Rio Grande. Preocupado com a situação pré-falimentar da empresa, o então governador Pedro Simon (PMDB) tinha exigido austeridade total.

Até que, em março de 1987, inventou-se o cargo de “assistente da diretoria financeira” para acomodar Lindomar, irmão do líder do Governo Simon na Assembléia, o deputado caxiense Germano Rigotto. “Era um pleito político da base do PMDB em Caxias do Sul”, confessaria depois o secretário de Minas e Energia, Alcides Saldanha. Mais explícito, um assessor de Saldanha reforçou a paternidade ao JÁ: “Houve resistência ao seu nome [Lindomar], mas o irmão [Germano] exigiu”.

Com a chegada de Lindomar, as negociações com os dois consórcios das obras, que se arrastavam há meses, foram agilizadas em apenas oito dias. Logo após a assinatura dos contratos, os pagamentos foram antecipados, contrariando as normas estritas baixadas por Simon para evitar curtos-circuitos contábeis na CEEE. Três meses depois, a empresa foi obrigada a um empréstimo de US$ 50 milhões do Banco do Brasil, captado pela agência de Nassau, no paraíso fiscal das Bahamas. Uma apuração da área técnica da CEEE detectou graves problemas: documentos adulterados, folhas numeradas a lápis, licitação sem laudo comprovando a necessidade da obra. A sindicância da estatal propôs a revisão dos contratos, mas nada foi feito. A recomendação chegou ao governo seguinte, o de Alceu Collares (PDT), e à sucessora de Saldanha na pasta das Minas e Energia, uma economista chamada Dilma Rousseff. “Eu nunca tinha visto nada igual”, diria ela, chocada com o que leu.

Dilma só não botou o dedo na tomada porque o PDT de Collares precisava dos votos do PMDB de Rigotto para ter maioria na Assembléia. Para evitar o risco de queimaduras, Dilma, às vésperas de deixar a secretaria, em dezembro de 1994, teve o cuidado de mandar aquela papelada de alta voltagem para a Contadoria e Auditoria Geral do Estado (CAGE), que começou a rastrear a CEEE com auditores do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e do Ministério Público. Dependendo do câmbio, o tamanho da fraude constatada era sempre eletrizante: US$ 65 milhões, segundo o CAGE, ou R$ 78,9 milhões, de acordo com o Ministério Público.

A denúncia energizou a criação de uma CPI na Assembléia, proposta pelo deputado Vieira da Cunha, líder da bancada do PDT em 2008 na Câmara Federal. Vinte e cinco auditores quebraram sigilos bancários e fiscais. Lindomar Rigotto foi apontado em 13 depoimentos como figura central do esquema, acusação reforçada pelo chefe dele na CEEE, o diretor-financeiro Silvino Marcon. A CPI constatou que os vencedores da licitação, gerenciados por Rigotto, apresentavam propostas “em combinação e, talvez, até ao mesmo tempo e pelas mesmas pessoas”. O relatório final lembrava: “É forçoso concluir pela existência de conluio entre as empresas interessadas que, se organizando através de consórcios, acertaram a divisão das obras entre si, fraudando dessa forma a licitação”. O JÁ foi mais didático: “Apurados os vencedores, constatou-se que o consórcio Sulino venceu todas as subestações do grupo B2 e nenhuma do B1. Em compensação, o Conesul venceu todas as obras do B1 e nenhuma do B1. A diferença entre as propostas dos dois consórcios é de apenas 1,4%”.

O aval de Dulce

A quebra do sigilo bancário de Lindomar revelou um crédito em sua conta de R$ 1,17 milhão, de fonte não esclarecida. O relatório final da CPI caiu na mão de um parlamentar do PT, o também caxiense Pepe Vargas, primo de Lindomar e Germano Vargas Rigotto. Apesar do parentesco, o primo Pepe, hoje deputado federal, foi inclemente na sua acusação final: “De tudo o que se apurou, tem-se como comprovada a prática de corrupção passiva e enriquecimento ilícito de Lindomar Vargas Rigotto”. Além dele, a CPI indiciou outras 12 pessoas e 11 empresas, botando no mesmo balaio nomes vistosos como Camargo Corrêa, Alstom, Brown Boveri, Coemsa, Sultepa e Lorenzetti. No final de 1996, a Assembléia remeteu as 260 caixas de papelão da CPI ao Ministério Público, de onde nasceu o processo n° 011960058232 da 2ª Vara Cível da Fazenda Pública em Porto Alegre. Os autos somam 30 volumes e 80 anexos e mofam ainda na primeira instância do Judiciário, protegidos por um inacreditável “segredo de justiça”. Em fevereiro próximo, o Rio Grande do Sul poderá comemorar os 15 anos de completo sigilo sobre a maior fraude de sua história.

Esta incrível saga de resistência e agonia do JÁ e de Bones provocada pela família Rigotto foi contada, em primeira mão, neste Observatório, em 24 de novembro de 2009 (”O jornal que ousou contar a verdade”). No dia seguinte, uma quarta-feira, Rigotto telefonou de Porto Alegre para reclamar ao autor que assina aquele e este texto.

– Isso ficou muito ruim pra mim, Luiz Cláudio, pois o Observatório é um formador de opinião, muito lido e respeitado. Ficou parecendo que eu estou querendo fechar um jornal. Eu não tenho nada a ver com isso. O processo é coisa da minha mãe. Foi a minha irmã, Dulce, que me disse que a reportagem era muito pesada, irresponsável. Eu nem conheço este jornal, este jornalista…

– Rigotto, a dona Julieta não é candidata a nada. O candidato és tu. A reportagem do JÁ tem implicações políticas que batem em ti, não na tua mãe. E acho muito estranho que, passados oito anos, tu ainda não tiveste a curiosidade de ler a reportagem que tanta aflição provoca na dona Julieta. Se tu estás te baseando na avaliação da Dulce, devo te alertar que ela não entende xongas de jornalismo, Rigotto! Esta matéria do Bones é precisa, calcada em fatos, relatórios, documentos e conclusões da CPI e do Ministério Público que incriminam o teu irmão. Não tem opinião, só informação. O teu processo…

– Não é meu, não é meu… É da minha mãe…

– Isso é o que diz também o Sarney, Rigotto, quando perguntam a ele sobre a censura que cala O Estado de S.Paulo. “Isso é coisa do meu filho, o Fernando”…

– Eu fico muito ofendido com esta comparação! Eu não sou o Sarney, não sou!…

– Lamento, mas estás usando a mesma desculpa do Sarney, Rigotto.

– Luiz Cláudio, como resolver isso tudo com o Bones? A gente pode parcelar a dívida e aí…

– Rigotto, tu não estás entendendo nada. O Bones não quer parcelar, não quer pagar um único centavo. Isso seria uma confissão de culpa, e ele não fez nada errado. Pelo contrário. Produziu uma reportagem impecável, que ganhou os maiores prêmios. Eu assinaria essa matéria, com o maior orgulho. Sai dessa, Rigotto!

Coincidência ou não, um dia depois do telefonema, na quinta-feira, 26, Rigotto convocou uma inesperada coletiva de imprensa em Porto Alegre para anunciar sua retirada como possível candidato ao Palácio Piratini, deixando o espaço livre para o prefeito José Fogaça.

O modelo de Roosevelt

Naquela mesma quarta-feira, 25 de novembro, a emenda ficou pior que o soneto. O advogado dos Rigotto, Elói José Thomas Filho, botou no papel aquela mesma proposta indecente que ouvi do próprio Germano Rigotto, confirmando por escrito ao editor a idéia de parcelar a indenização devida de R$ 55 mil em 100 (cem) módicas prestações. Diante da altiva recusa de Bones, o advogado pareceu incorporar a doutrina do big stick de Theodore Ted Roosevelt (1901-1909), popularmente conhecida como “lei do tacape” e inspirada pela frase favorita do belicoso presidente estadunidense: “Fale com suavidade e tenha na mão um grande porrete”. O suave advogado Thomas Filho escreveu então para Bones: “… em nova demonstração de boa-fé, formalizamos nossa intenção em compor amigavelmente o litígio acima, bem como a possibilidade [sic] de nos abstermos de ajuizar novas demandas judiciais…”.

Certamente para tranquilizar o filho candidato, o advogado reafirmava na carta a Bones que a ação contra o jornal era movida “unicamente” por dona Julieta, que buscava na justiça o ressarcimento pelo “abalo moral” provocado pela reportagem do JÁ, que misturava “irresponsavelmente três fatos diversos que envolveram a figura do falecido”. Ou seja, dona Julieta Rigotto, que entende de jornalismo tanto quanto os filhos Dulce e Germano, não consegue perceber a obviedade linear de uma pauta irresistível para qualquer repórter inteligente: o objetivo relato jornalístico sobre um homem público – Lindomar – morto num assalto pouco antes de ser julgado pelo homicídio culposo de uma prostituta e pouco depois de ser denunciado no relatório de uma CPI, redigido pelo primo deputado, pela prática comprovada de “corrupção passiva e enriquecimento ilícito” na maior fraude já cometida contra os cofres públicos do Rio Grande do Sul. Mas, na lógica simplória da mãe dos Rigotto, uma coisa não tem nada a ver com a outra…

Para garantir o tom “amigável” entre as partes, o advogado de dona Julieta propôs a Bones os termos de uma retratação pública, suave como um porrete, enfatizando três pontos:

1. “Dona Julieta nunca teve a intenção de fechar o jornal”;

2. “a ação não é promovida pela família Rigotto, mas apenas por dona Julieta”;

3. “retirar o jornal de circulação, para estancar a propagação do dano”.

Tudo isso, incluindo o ameno confisco de um jornal das bancas em pleno regime democrático, segundo o tortuoso raciocínio do advogado, serviria para “tutelar a honra e a imagem de seu falecido filho”. Neste longo, patético episódio, que intercala demonstrações de coragem e altivez com cenas de pura violência, fina hipocrisia ou corrupção explícita, ficou pelo caminho o contraste de atitudes que elevam ou rebaixam. Diante da primeira ação criminal de dona Julieta na Justiça, o promotor Ubaldo Alexandre Licks Flores ensinou, em novembro de 2002:

“[não houve] qualquer intenção de ofensa à honra do falecido Lindomar Rigotto. Por outro lado, é indiscutível que os três temas [a CEEE e as duas mortes] estavam e ainda estão impregnados de interesse público”.

O orgulho de Enedina

Apesar da lucidez do promotor, o caso tonitruante da CEEE não ecoa nos ouvidos surdos da imprensa gaúcha, conhecida no país pela acuidade de profissionais talentosos, criativos, corajosos. Nenhum grande jornal do sul – Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul –, nenhum colunista de peso, nenhum editorialista, nenhum blog de prestígio perdeu tempo ou tinta com esse tema, que nem de longe parece um assunto velho, batido ou nostálgico. O que lhe dá notória atualidade não é o ancestral confronto entre a liberdade de expressão e a prepotência envergonhada dos eventuais poderosos de plantão, mas a reaparição de seus principais personagens no turbilhão da corrida eleitoral de 2010.

Germano Rigotto, o líder governista que emplacou o filho de dona Julieta na máquina estatal, é hoje o candidato do maior partido gaúcho ao Senado Federal. A ex-secretária Dilma Rousseff, que ficou estarrecida com o que leu sobre as fraudes de Lindomar Rigotto na CEEE, é apontada pelas pesquisas como a futura presidente do Brasil, numa vitória classificada pelo renomado jornal inglês Financial Times como “retumbante”. Tarso Genro, o ex-comandante supremo da Polícia Federal, que executou as maiores operações contra corruptos da máquina pública, lidera a corrida ao governo gaúcho e, certamente, tem os instrumentos para saber hoje o que Dilma sabe desde 1990. O primo Pepe Vargas, que mostrou isenção e coragem no relatório da CPI sobre a maior fraude da história do Rio Grande, é candidato à reeleição, assim como o deputado federal que inventou a CPI, Vieira da Cunha.

É a lógica perversa do interesse eleitoral que explica o desinteresse até dos principais adversários de Rigotto na disputa pelo Senado. O candidato do PMDB está emparedado entre a líder na pesquisa da Datafolha, a jornalista Ana Amélia Lemos (PP) – que subiu de 33% em julho para 44% na semana passada – e o candidato à reeleição pelo PT, senador Paulo Paim – que cresceu de 35% no início do mês para 38% agora. Rigotto caiu de 43% para 42% no espaço de três semanas. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, Ana Amélia bate Rigotto por 47% a 39%. Seus oponentes desprezam o potencial explosivo do “Caso CEEE” porque todos sonham em ganhar o segundo voto dos outros candidatos, o que justifica a calculada misericórdia e o piedoso silêncio que modera a estratégia de adversários historicamente tão diferentes e hostis como são, no Rio Grande do Sul, o PT, o PMDB e o PP.

O que é recato na política se transforma em omissão nas entidades que, ao longo do tempo, marcaram suas vidas na luta pela democracia e pela liberdade de expressão e no repúdio veemente à ditadura e à censura. Siglas notáveis como OAB, ABI, SIP, Fenaj e Abraji brilham pelo silêncio, pela omissão, pelo desinteresse ou pelo trato burocrático do caso JÁ vs. Rigotto, que resume uma questão crucial na vida de todas elas e de todos nós: a livre opinião e o combate à prepotência dos grandes sobre os pequenos, apanágio de toda democracia que se respeita.

A OAB e seus advogados, no Rio Grande ou no Brasil, que impulsionaram a queda de um presidente envolvido em denúncias de corrupção, não se sensibilizam pela sorte de um pequeno jornal e seu bravo editor, punidos por seu desassombrado jornalismo e mortalmente asfixiados pelo cerco econômico surpreendentemente avalizado pela Justiça, que deveria proteger os fracos contra os fortes – e não o contrário.

A inerte Associação Brasileira de Imprensa jamais se pronunciou sobre as agruras de Bones e seu jornal. Só em setembro de 2009, um mês após a denúncia sobre o bloqueio judicial das receitas do JÁ, é que a Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas do RS trataram de fazer alguma coisa: uma nota gelada, descartável, manifestando solidariedade à vítima e lamentando a decisão “equivocada” da Justiça. A Associação Riograndense de Imprensa, que em 2001 conferiu à reportagem contestada do JÁ o seu maior prêmio jornalístico, só quebrou o seu constrangedor silêncio ao ser cobrada publicamente por este Observatório, em novembro passado. Todos os membros da brava Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo têm a obrigação de conhecer a biografia de Elmar Bones, que nos anos de chumbo pilotou o CooJornal, um mensário da extinta Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (1976-1983) que virou referência da imprensa nanica que resistia à ditadura.

Bones chegou a ser preso, em 1980, pela publicação de um relatório secreto em que o Exército fazia uma autocrítica sobre as bobagens cometidas na repressão à guerrilha do Araguaia. Algo mais perigoso, na época, do que falar na roubalheira operada pelo filho de dona Julieta na CEEE… No site da Abraji, a entidade emite sua opinião em quatro notas, nos últimos dois anos. Critica o sigilo eterno de documentos públicos, defende o seguro de vida para repórteres em zona de risco, repudia um tapa na cara que uma repórter de TV do Centro-Oeste levou de um vereador e, enfim, faz uma vigorosa, firme, veemente manifestação a favor da liberdade de expressão… no México. Ao pobre JÁ e seu editor, lá no sul do Brasil, nenhuma linha, nada.

A poderosa Sociedade Interamericana de Imprensa, que reúne os maiores veículos das três Américas, patrocina uma influente Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação, hoje sob a presidência de um jornal do Texas, o San Antonio Express News. Entre os 26 vice-presidentes regionais, existem dois brasileiros: Sidnei Basile, do Grupo Abril, e Maria Judith de Brito, da Folha de S.Paulo. Envolvidos com os graves problemas da Paulicéia, eles provavelmente não podem atentar para o drama vivido por um pequeno jornal de Porto Alegre. Mas, existem outros 17 membros na Comissão de Liberdade da SIP, e dois deles bem próximos do drama de Bones: os gaúchos Mário Gusmão e Gustavo Ick, do jornal NH, de Novo Hamburgo, cidade a 40 km da capital gaúcha. Nem essa proximidade livra as aflições do JÁ e seu editor do completo desdém da SIP.

Este monumental cone de silêncio e omissão, que atravessa fronteiras e biografias, continua desafiando a sensibilidade e a competência de jornais e jornalistas, que deveriam se perguntar o que existe por trás do amaldiçoado caso da CEEE, que afugenta em vez de atrair a imprensa. A maior fraude da história do Rio Grande, mais do que uma bomba, é uma pauta em aberto, origem talvez da irritação dos Rigotto contra o editor e o jornal que ousaram jogar luz nessa história mal contada. Os volumes empoeirados deste megaescândalo continuam intocados nas estantes da Justiça em Porto Alegre, protegido por um sigilo inexplicável que só pode ser útil a quem mente e a quem rouba, não a quem luta pela verdade e a quem é ético na política, como fazem os bons repórteres e como devem ser os bons políticos.

O bom jornalismo não é aquele que produz boas respostas, mas aquele que faz as boas perguntas – e as perguntas são ainda melhores quando incomodam, quando importunam, quando constrangem, quando afligem os consolados e quando consolam os aflitos.

A emoção é a última fronteira de quem perde os limites da razão. Elmar Bones tinha ganhado todas as instâncias do processo criminal, quando um juiz do Tribunal de Justiça, na falta de melhores argumentos, preferiu se assentar nos autos impalpáveis do sentimento para decidir em favor da mãe de Germano Rigotto:

“Não há como afastar a responsabilidade da ré pelas matérias veiculadas, que atingiram negativamente a memória do falecido, o que certamente causou tristeza, angústia e sofrimento à mãe do mesmo (…)”.

Dona Julieta Rigotto, viva e forte aos 89 anos, ainda sofre com a honra e a imagem maculadas de seu falecido filho, Lindomar.

Dona Enedina Bones da Costa tinha 79 anos quando morreu, em 2001, poupada assim da tristeza, angústia e sofrimento que sentiria ao ver o drama vivido agora por seu filho, Elmar. Mas ela teria, com certeza, um enorme, um insuperável orgulho pelo filho honrado e corajoso que trouxe ao mundo e ao jornalismo.

Caraminholas

A corrupção do sentido das palavras

Bom, agora que a eleição tá resolvida e o resultado foi proclamado (estamos esperando apenas a dispensável homologação da Justiça Eleitoral, após uma ridícula pantomima de eleição), podemos voltar a falar de política.

Por mais que tenha ouvido e lido os lulistas e petistas nestes últimos anos, ainda me surpreendo com a forma peculiar do Lula organizar seu mundo todo particular onde, naturalmente, alguns de nós não conseguem entrar.

Há poucos dias, num dos seus incontáveis discursos de improviso, ele explicou como vê o relacionamento do Executivo com o Legislativo:

“— É importante votar nos deputados federais para ajudar a companheira Dilma, porque não tem nada pior que você precisar de voto e algumas pessoas ficarem te chantageando. Portanto, é importante votar nos companheiros dos partidos que estão apoiando Dilma.”

Chantagem? A negociação com o Congresso tem esse tipo de baixaria? Tá, mas se fizer um acordo pré eleitoral com os mesmos partidos e políticos acusados de chantagem, a chantagem deixa de existir? Ou muda de nome?

E o mais impressionante é que o episódio do mensalão (coisa tão real que até o STF aceitou abrir um processo), foi reduzido, no discurso presidencial, a uma fantasia golpista. Pedir o impeachment de um presidente que negociava votos em dinheiro (ou cedia a chantagens, pra usar o delito que ele mesmo citou), ou de um presidente que sabia que seus companheiros espionavam a declarações de renda dos adversários (remember Nixon), passou a ser apenas uma injustiça, uma espécie de birra, causadora de dor e infortúnio a uma pobre vítima indefesa.

E a criação de uma organização política forte (máfia?) poderia blindar o presidente (todos ou só os da organização?) dessa ingerência inaceitável das democracias: a fiscalização dos atos de todos os servidores públicos. Mesmo os mais graduados, como o presidente, que não deveria se auto-proclamar imune a esse olhar inquisitório do público.

Tá em O Globo:

“Ao falar das dificuldades que teve, diante da sua frágil maioria no Senado, Lula disse que, após sair da a Presidência, andará pelo país para avaliar a construção de uma organização política:

— Uma organização política em que a gente junte todos os partidos aliados e crie uma coisa muito forte, para nunca mais permitir que um presidente sofra o que sofri em 2005, com um Senado que quase tenta derrubar o presidente da República.”

Eleições 2010

Sonífera Dilma!

Outro dia coloquei aqui um filminho com trechos das hesitações da Dilma num dos debates. Era, como ficava claro, um filme editado, só com os piores momentos. Muita gente ficou irritada com o que chamaram de “manipulação”.

Pois agora, aproveitando a efeméride faustosa de que todos os institutos de pesquisa já elegeram Dilma por aclamação, trago pra cá um vídeo sem edição, sem truques e sem cortes, que vi no blog do Noblat.

Taí, a límpida eloquência e a fluente retórica da nova presidente eleita (pela federação de pesquisas unidas hasta la vitoria sempre). Munam-se de paciência e boa vontade, porque são 12 minutos de trololó. Mas é importante ver, para entender por que tem tanta gente entusiasmada com esse “animal político”:

Caderno de Domingo

Devia ter arriscado mais! E até errado mais!

Epitáfio

Composição: Sérgio Britto

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer…

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe alegria
E a dor que traz no coração…

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor…

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier…

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…(2x)

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se por…

Bloguices

Sugestão pros colegas blogueiros/colunistas

Costumo ler os blogs e sites de minha preferência, via Google Reader. Pra quem não sabe, é um “agregador de conteúdo” (RSS), que mostra as atualizações de todos os endereços que eu cadastrei ali. Com isso, não preciso abrir cada um deles e fico sabendo, num único site, o que tem de novo em dezenas de outros.

E, quando leio, aproveito para marcar todos os posts que acho interessantes, para que apareçam nessa coluninha ali da direita (Leituras online) e fiquem na minha página pública dos ítens compartilhados do Google Reader (aqui). É a velha fórmula do “li, gostei e dou de graça para vocês”. Ficam como uma espécie de recomendação para os leitores que passam por aqui.

Pois bem, quando alguns colegas, como o Carlos Damião, o Celso Martins (Sambaquina Rede) e a dupla Meira Jr/Luiz Schneider (Temperos & Apimentadas) colocam várias notas num post só, numa espécie de coluna, criam um dilema pra mim e, acredito, para os comentaristas: como são vários assuntos, não tem como indicar uma nota em especial e fica difícil comentar lá no fim uma coisa dita lá no começo.

Sei disso porque, por muito tempo, fiz a mesma coisa. Simplesmente trazia a coluna inteira do Diarinho e a colocava aqui, como um post único, a cada dia. Depois de algumas queixas, resolvi mudar o esquema e postar cada nota como um post. Dá um trabalhão mas abre, para cada uma, um espaço de comentários. O fã do Dário pode escrever o que acha na notinha que fala dele e ficar quieto numa outra nota que trata da Ideli, por exemplo. E para quem lê via rss, facilita de montão na hora de compartilhar e recomendar.

Claro que postar várias notas num único post não atrapalha a leitura e não prejudica o blog. Mas dêem uma pensada na minha sugestão, conversem com seu pessoal e, se resolverem mudar, agradeço desde já. E, se não mudarem, continuarei lendo do mesmo jeito.

Leituras online

Jornalista é um incômodo

Roubei o texto abaixo lá do blog do Noblat porque, por coincidência, estava justamente querendo dizer isso. E como sou inimigo do retrabalho, se ele disse o que eu queria dizer, não tem mais necessidade de escrever. É só copiar e colar. E assinar embaixo (depois de dar os devidos créditos, claro).

Sobre a imparcialidade do jornalista

por Ricardo Noblat

Este é um dos mitos cultivados há mais de século: jornalista é imparcial. Ou tem obrigação de ser.

Ninguém é imparcial. Porque você é obrigado a fazer escolhas a todo instante. E ao fazer toma partido.

Quando destaco mais uma notícia do que outra faço uma escolha. Tomo partido.

Quando opino a respeito de qualquer coisa tomo partido.

Cobre-se do jornalista honestidade.

Não posso inventar nada. Não posso mentir. Não posso manipular fatos.

Mas posso errar – como qualquer um pode. E quando erro devo admitir o erro e me desculpar por ele.

Cobre-se do jornalista independência.

Não posso omitir informações ou subvertê-las para servir aos meus interesses ou a interesses alheios.

Se me limito a dar uma notícia devo ser objetivo. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões.

Se comento uma notícia ou analiso um fato, ofereço minhas próprias conclusões. Cabe aos leitores refletir a respeito, concordar, divergir ou se manter indiferente.

Jornalista é um incômodo. E é assim que deve ser. Se não for não é jornalista.”

Leituras online

Dono/editorialista da TVBV na mira da Justiça

Fiquei muito espantado quando vi, antes do debate de candidatos a governador de SC, o dono da TV Barriga Verde, Saul Brandalise Jr., apresentar ele próprio, em pessoa, um severo editorial, cheio de recomendações e advertências.

Imaginem agora o espanto sobre o espanto, quando recebo, da Justiça Federal, uma nota informando que ele e outros sócios estão com os bens indisponíveis, suspeitos de crimes contra a ordem tributária, que teriam causado prejuízo de cerca de R$ 750 milhões aos cofres públicos. Parece tratar-se de mais um daqueles casos graves de “façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”.

A nota:

Justiça Federal decreta indisponibilidade de bens de empresários

A Justiça Federal decretou o sequestro judicial do patrimônio dos empresários Flávio Brandalise, Saul Brandalise Júnior e Ivan Oreste Bonato, denunciados em ações penais por supostos crimes contra a ordem tributária. A decisão foi proferida ontem (terça-feira, 24/8/2010) pelo juiz Eduardo Correia da Silva, da Vara Federal de Caçador, e atende pedido do Ministério Público Federal (MPF) e da União.

O juiz determinou também a indisponibilidade dos bens dos empresários, ainda que estejam em poder de outras pessoas. Para cumprimento da decisão, foram expedidos, entre outras medidas, mandados de sequestro para apreensão, depósito e avaliação de bens móveis, que começaram a ser cumpridos hoje (25) de manhã pela Polícia Federal em Videira, Joaçaba, Florianópolis e Curitiba (PR). As diligências tiveram a participação de servidores e oficiais de Justiça da Vara Federal e do Grupo Especial de Segurança da Justiça Federal em Santa Catarina.

O total das medidas atinge 20 pessoas e seis empresas e pode, conforme o caso, incluir o bloqueio de contas bancárias e valores mobiliários, averbação da indisponibilidade dos imóveis nos respectivos cartórios e suspensão da distribuição de lucros das empresas envolvidas. A íntegra
da decisão está disponível na página da Justiça Federal em Santa Catarina na Internet.

O MPF e a União alegam que os três denunciados teriam inserido informações falsas em livros fiscais, simulando negócios e omitindo informações à Receita Federal, com o objetivo de suprimir e reduzir tributos. Em função dos supostos atos, teriam deixado de ser pagos mais de R$ 543 milhões. O valor atualizado, segundo o MPF e a União, ultrapassaria a cifra de R$ 750 milhões.

Justiça Federal em Santa Catarina – Seção de Comunicação Social”

Leituras online

O velho esquema do shopping sem habite-se…

Vocês, que são florianopolitanos, vão reconhecer alguns elementos da história que o Ângelo Rigon, um blogueiro de Maringá, está contando na nota que transcrevo abaixo (o original está aqui). Ele notou que as mesmas maracutaias que envolveram a construção de um shopping na cidade estão acontecendo na construção de um shopping em Palmas, Tocantins. O que mais os dois empreendimentos têm em comum? O Amastha, cônsul da Colômbia, que também passou pela ilha da moeda, digo, da magia.

Olhaí:

“É Capim Dourado, mas pode chamar de Aspen…
25 agosto 2010

Quando o Aspen Park começou a ser construído em Maringá, para que a construção fosse viabilizada do jeito que foi planejada, houve-se por bem comprar vereadores, que mudaram a legislação de uso e ocupação do solo (perguntem a um ex-presidente quando este estiver nos estertores, que, temente a Deus como diz, deve confirmar). Tempos depois, já na gestão do ímprobo e religioso Silvio Barros II, montaram uma audiência pública para uma nova infração à lei.

A grande figura por detrás do empreendimento, Carlos Amastha, agora aparece com o Shopping Capim Dourado, em Palmas (TO), sob a mesma circunstância: não é que descobriram que o empreendimento foi inaugurado sem habite-se e alvará de funcionamento? É Maringá, definitivamente, exportando norrau de malandragem.”

Fala leitor

O verdadeiro significado de “tá tudo dominado” (atualizado)

O relato que vocês lerão abaixo é estarrecedor. Acaba de ser enviado aos principais colunistas cariocas, porque o fato aconteceu no Rio de Janeiro. Revela, com sua crua simplicidade, a situação de abandono de uma das cidades mais fascinantes do mundo e demonstra, na prática, o que significa viver numa metrópole dominada pela contravenção, pelo crime e anestesiada pela impunidade.

A autora do texto não será identificada por razões óbvias, mas não se trata de uma anônima. Eu a conheço há bastante tempo e posso atestar sua seriedade e confiabilidade.

E trago pra cá porque essa torpe realidade tem relação direta conosco: a Grande Rio é a escola de samba que terá Florianópolis como enredo no carnaval de 2011 (veja aqui, aqui ou aqui). A figura escrota que aparece abaixo fazendo e acontecendo numa pizzaria famosa do Leblon, é o “presidente” com quem, provavelmente, autoridades municipais e estaduais florianopolitanas e catarinenses negociaram ou negociarão as verbinhas públicas (disfarçadas de renúncia fiscal), que financiarão o “privilégio” de ser enredo e também ajudarão esse indivíduo a continuar com suas orgias em público.

Olha só que coisa nojenta:

“Sou jornalista. Na última semana estive no Rio de Janeiro, que está nos holofotes do noticiário, novamente, desde o ataque dos bandidos ao Intercontinental. Fui ao Congresso da ANJ e acabei ficando mais uns dias a passeio.

Admiro e curto o Rio, pelas belezas naturais, pelo povo simpático, pela cultura, pelo clima descontraído. Nunca fui assaltada, nunca tinha assistido nenhuma cena que pudesse ofuscar meu carinho e admiração pela cidade. Na madrugada de domingo para segunda-feira (dia 23/08), porém, presenciei uma cena asquerosa na famosa Pizzaria Guanabara – da Ataulfo de Paiva, no Leblon. Cena que talvez explique muito sobre os episódios de violência que a cidade protagoniza de tempos em tempos e sobre os quais todos adoram comentar.

Petiscava com amigos no tradicional ponto de encontro da Zona Sul, quando chegou ao local o contraventor Jayder Soares, presidente de honra da Escola de Samba Grande Rio. Como não acompanho o mundo dessas estranhas celebridades, só percebi que se tratava de alguém “importante” pela movimentação. Acompanhado de uma série de seguranças, que cercaram o restaurante do lado de fora, Jayder, ladeado por quatro travestis, ocupou uma mesa interna dos fundos do restaurante. Havia um amigo carioca em nossa mesa, e ele logo explicou que Jayder era uma pessoa “poderosa”.

Nós, sentados do lado de fora, próximos às janelas laterais com vista para a mesa de Jayder, ouvimos as gargalhadas animadas do grupo. Nada demais para mais um fim de noite carioca…

Cerca de meia hora depois, contudo, a cena tornou-se impressionante. Jayder, repentinamente, se levantou da mesa, e em pé, de frente para a mesa que ocupava, abaixou as calças. Ele vestia jeans e uma camisa Polo, lilás, de grife -, dessas da moda entre os que querem ostentar posses, da “Tommy Hilfiger”.

Calmamente, desafivelou o cinto de couro, abaixou a cueca e chamou um dos travestis. Custei a acreditar no que se anunciava acontecer. O travesti se inclinou e passou a fazer sexo oral no carnavalesco, contraventor, presidente de honra da Grande Rio. Vários clientes perceberam a cena. Constrangidos, chamamos um garçom e o questionamos. Sem graça, ele disse que nada podia fazer porque o gerente não queria se “indispor” com Jayder.

Jayder, o poderoso, seguiu com a farra. Chamou outro travesti do grupo e, de calças arriadas, continuou recebendo sexo oral.

Pedi a conta, enojada, mas o grupo do bicheiro foi mais rápido. Jayder já parecia satisfeito. Pagou e saiu escoltado por seguranças e pelo grupo de travestis. Ria muito. Embarcou num carro e desapareceu.

Me senti ultrajada pela cena. Resolvi passar isso aos colegas da imprensa. Pensei em ir até uma delegacia de polícia, mas depois me dei conta da inutilidade e do ridículo que isso representaria.

Apesar de chocante, o episódio também é esclarecedor. Não conhecia Jayder e sua peripécias, mas através de uma pesquisa simples pela internet, descobri que ele é um homem rico e bem relacionado. Artistas, empresários e até o ex- Ministro da Cultura, Gilberto Gil, freqüentam suas festas. Ele é o “dono da Grande Rio,” paparicado por atores globais. Alguns desses mesmos atores que, curiosamente, deram declarações de protesto sobre o episódio do Intercontinental. Querem segurança! Querem uma cidade livre de violência! Querem morar em São Conrado em paz!

Falar é fácil. Na prática complica. A maioria adora freqüentar a Sapucaí, as festas financiadas pelo dinheiro sujo do jogo do bicho; festas dos homens que, sabidamente, mantém ligações com o crime organizado. Muitos dos que discursam por uma cidade sem violência, também gostam de fazer um uso “social” da maconha e cocaína, financiando assim o tráfico de drogas e tudo o que ele representa.

Um contraventor, por sua condição de fora da lei, deveria ter medo das sanções previstas num Estado Democrático de Direito para quem transgride às normas. Teoricamente, deveria viver à margem, discretamente, se esquivando da polícia e tentando escapar da mira da Justiça. Mas, ao contrário de temer represálias, Jayder faz questão de afrontar…

E o contraventor não estava num baile de carnaval ou num baile funk, desses sobre os quais a gente ouve falar barbaridades através dos jornais. Jayder estava dentro da pizzaria mais tradicional do Rio de Janeiro, localizada num dos bairros mais valorizados e charmosos da cidade.

Isso é muito simbólico. Isso sugere porque os traficantes também estão deixando de barbarizar somente na favela para atormentar e apavorar o pessoal do asfalto.

Triste para uma cidade que se prepara para abrigar dois entre os maiores eventos esportivos do mundo. Cidade onde a maior parte das pessoas trabalha, paga impostos, mas que pode ser afrontada, a qualquer momento, por um fora da lei, só porque ele é muito poderoso e rico…

O governador Sérgio Cabral mora ali na vizinhança. Deve freqüentar a pizzaria, assim também como dezenas de empresários e artistas, muitos deles que adoram se deixar fotografar ao lado do contraventor, como vi através da internet. Depois, não adianta reclamar da violência…

A violência começa quando as pessoas perdem as noções básicas de civilidade e de respeito ao próximo.

Jayder, ao baixar as calças no meio do restaurante e receber sexo oral de um travesti, não queria apenas satisfazer a sua tara. Afinal, ele poderia fazer a orgia num motel ou no conforto da sua casa. O que Jayder queria mesmo era público para sua escrotice, talvez para reafirmar seu poderio e sua fama de bad boy.

Cena podre, que vou lamentar ter assistido a vida inteira.

Acorda, cidade maravilhosa! Ainda dá tempo.”

“NÃO FOI NADA DISSO!”

O site do jornal Extra publicou, hoje à tarde, uma nota em que o personagem afirma que não estava com travestis (aqui). Transcrevo:

Presidente da Grande Rio nega ter feito sexo oral com travestis

Jayder Soares, presidente de honra da Grande Rio, negou a acusação de uma frequentadora da Pizzaria Guanabara, de que teria recebido sexo oral de travestis no meio do restaurante. A polêmica está sendo divulgada em uma carta na Internet. “Isso é calúnia. Não houve nada, gosto é de mulher. Se eu tiver que fazer sexo será na minha casa, moro perto e sozinho. Acho ridícula essa acusação. Eu não tenho nada contra travestis, preconceito nenhum. Trabalho com eles no Carnaval. É esse povo que me ajuda a fazer a escola”. Jayder afirma que estava acompanhado do cabeleireiro Flávio Priscott, da modelo Joana Machado, ex-namorada de Adriano Imperador, uma amiga chamada Valéria e um amigo gay de Joana na Pizzaria Guanabara, domingo, após um jantar no Sushi Leblon.

Flávio diz que está arrasado: “Eu acho um absurdo. As pessoas que disseram que eram travestis são, na verdade, eu, Flavio Priscott, a Joana, que seria o travesti louro, e a Valéria. Ela tem cara de cavalo, parece homem, mas é mulher e uma querida. Isso não aconteceu. Jantamos no Sushi Leblon, onde estavam Beth Lago, Miguel Falabella, a Joana nos pegou e fomos para a Pizzaria. Foi um jantar normal. Fiquei arrasado, Jayder é como um pai para mim. Quando tinha 17 anos, frequentava Caxias porque lá tinha um bloco, que virou a Grande Rio”. “

“ELE JAMAIS SE PORTARIA DESSA FORMA”

A colunista de O Globo, Cora Rónai, tinha publicado no seu blog a carta. No meio da tarde retirou-a, substituindo por este texto:

“Fica suspensa, por enquanto, a publicação deste post.

Acontece que me ligou minha amiga Liege Monteiro, amiga também do Jayder Soares, garantindo que nada do que a nossa colega catarinense testemunhou teria acontecido conforme relatado.

Jayder de fato foi à Pizzaria Guanabara, de fato levou os seguranças que sempre o acompanham, mas por aí teriam ficado as semelhanças entre os relatos, já que no elenco de personagens à sua mesa sequer havia travestis e — sustenta a Liege, que o conhece bem e que até está redigindo uma nota aqui para o blog, pondo os pingos nos ii — Jayder jamais se portaria daquela forma.

Devo confessar a vocês que prefiro esta versão; acho que a cidade já está avacalhada demais para suportar (mais!) cenas tão lamentáveis. Gostaria, sinceramente, de acreditar num possível mal-entendido.

Enfim: enquanto a confusão não se esclarece, o blog baixa o fogo dessa panela.”

Bom, enquanto isso fica a palavra da espectadora perplexa e amedrontada (em quem confio), contra o esforço de relações públicas que já começa a surtir seus efeitos. Na sequência certamente será acionado o departamento jurídico. Na próxima ocasião, não deixem de registrar a cena com a câmera do celular. Porque, se ninguém fez isso nesse “incidente”, é possível que, em se tratando de pessoa tão rica, bem relacionada e poderosa, a edulcorada versão oficial acabe prevalecendo. Ou vocês acham que alguém terá coragem de ir à barra dos tribunais testemunhar contra um festejado presidente de escola de samba carioca?

ATUALIZAÇÃO DA QUINTA À TARDE

E a Cora acabou retirando, agora à tarde, até mesmo o texto explicativo e os comentários dos leitores sobre o assunto. Decerto recebeu mais alguma informação da turma do outro lado e resolveu cair fora totalmente. Por aqui, continuamos botando fé na nossa pobre amiga, que viu o que não devia e ainda vai acabar sendo chamada de mentirosa pelos amigos do amigo.

Florianópolis

A pedra na praia, em frente à casa da tia Noca

Pra quem não relaciona o nome à pessoa: o Brito é o da direita

Pra ajudar a relacionar o nome à pessoa: o Brito é o da direita. O outro é o Scotto.

O Paulo Brito, manezinho nascido e criado no norte da ilha é um sujeito longevo. E de boa memória. Esses dois atributos permitem que ele conte histórias do arco da velha, literalmente ocorridas no tempo em que essa expressão era de uso corrente. No oco da madrugada, irritado e frustrado com um evento em Criciúma e depois de ter lido as coisinhas que falei sobre Jurerê, ele desandou a escrever sobre algumas reminiscências ecológicas e me mandou um e-mail quilométrico que transcrevo aqui. Conversar sobre essa ilha das nossas lembranças, que não existe mais, é um esporte apreciado por mim e alguns leitores e leitoras. Portanto, com a palavra, o nosso amigo Paulo Brito (que acha que eu considero restinga apenas a vegetação, mas tudo bem, não vamos discutir por causa disso):

“César,

Eu cresci no Jurere, que era chamado de Caldeirão porque a areia, no verão de sol forte, queimava os pés das pessoas e naquele tempo não havia sandália havaiana.

Caldeirão, Lami, Rua Velha e Canasvieiras são parte da antiga Freguesia colonizada pelos meus antepassados, uma mistura de açorianos com guerreiros espanhóis que invadiram a ilha no século XVIII.

Esses lugares estão incrustados nas encostas do morro porque poucos moradores construíam suas casas junto à praia, de frente para o mar. Eram poucos os antigos do lugar que viviam da pesca, a maioria vivia da agricultura de subsistência, beneficiamento de mandioca — que virava farinha — de alguma vaca leiteira e alguns eram comerciantes, os “cristãos novos”.

Estou descrevendo um tempo em que o transporte era feito pelo mar, com barcos a vela, ou a cavalo, pelas poucas trilhas que existiam na Ilha.

Todos os morros do norte estavam isolados pelo mangue, que se transforma, cresce, invade o mar todos os dias.

O mar que leva e traz areia por causa da corrente, da maré grande de lua no inverno.

Pois quero te dizer que na frente da casa da tia Lica Noca, bisavó do Roberto Costa, aquele da Propague, construída no terreno que fica entre o Bar do Quinha (na verdade a casa do seu Lucas, cortador de pedra) e o que é hoje o trapiche do Veleiros, existe uma pedra que ora aparece e ora desaparece por causa da maré.

É de um tempo que o único caminho que tínhamos para chegar ao Caldeirão ou na Ponta Grossa era o caminho da praia e às vezes aquela pedra não deixava a carroça passar.

O Jurere era um mangue que fazia parte do delta dos rios Ratones e Cachoeira, que isolava o povo da Ponta Grossa, da praia do Forte e da Daniela. Para chegar ou sair da Ponta Grossa havia duas alternativas: caminhar pela praia ou ir de barco (a remo ou vela) até a ladeira do seu Carlos Zé Vicente. Pela praia dependia da maré: com maré alta não dava.

Depois veio o tempo em que o povo da Ponta Grossa tinha que caminhar oito quilômetros até chegar a Igreja de São Francisco para pegar o ônibus do seu João Evaristo. E na volta da cidade, às 17h, o povo tinha que carregar os sacos de compras nas costas pelos mesmos oito quilômetros.

Isto tudo para descrever o lugar e as dificuldades para nos mexermos, comer, comprar, ir ao médico, visitar os parentes ou mesmo enterrar os mortos. Porque tanto o povo da Ponta Grossa como o povo da Ponta das Canas enterra seus mortos no cemitério de Canasvieiras.

Então volto à casa da tia Lica Noca, bisavó do Roberto e repito: na frente há uma pedra que aparecer e desaparece de acordo com a maré grande e a correnteza que leva a traz a areia.

O que tu e os entendidos em ecologias chamam de restinga não havia. Era pura lama, dunas de areia ou, como o meu pai dizia, terrenos que só tinham duas serventia: plantar araçá e espalhar a areia trazida pela maré.

Restinga é uma vegetação temporária. A Terra é um organismo vivo em transformação. A Terra muda de acordo com a maré e a lua.

O rio carrega areia e folhas mortas que acabam no mar, que deposita na praia, que os microorganismo transformam em terra preta, fértil, que permite o mato crescer, que alimentará os animais, que alimentarão os homens que fazem parte do sistema ecológico do planeta.

A pedra da casa da tia Lica Noca, bisavó do Roberto apareceu neste inverno, está desaparecendo e onde tu vistes muro, o mar ficava muito longe, às vezes ele bate ali, às vezes não bate, porque às vezes a areia vai para a Armação, Tinguá e Prainha, do outro lado da baia ou então fica na Daniela, que tem uma ponta que cresce um metro por ano em direção da Ilha Grande dos Ratones.

A ponta cresce porque o Rio Ratones e o Cachoeira trazem areia e folhas mortas que a chuva carrega para os rio, que leva para o mar.

Faço uma aposta contigo que no verão o mar vai depositar areia no muro de pedras que foi construído na Armação do Pântano do Sul, como aconteceu no muro de pedras que construíram para levantar a Avenida Beiramar, inaugurada em 1981.

Abre parênteses: 81 foi o ano que a gente voltou para o Curso e estavam fazendo um movimento para transformar a Ponta do Coral em lugar público. Agora, depois de 30 anos, a Ponta do Coral esta virando uma favela sob a alegação de que serve a uma Associação de Pescadores. Pescadores que chegam ao local no sábado à noite para fazer festas e em carros que me dão inveja. Eles pescam outro tipo de peixe: peixões com peitões, como a gente se referia às raparigas fogosas e cheinhas, as gostosas do nosso tempo. Fecha parênteses.

Acho que acabou a irritação porque me permitisse lembrar da Tia Lica Noca, que fazia uma gemada com açúcar grosso que ainda me dá água na boca.

Por último, tu sabes que a Floram não precisa pedir licença para a prefeitura para plantar árvores de carreirinha no mangue da Reta das Três Pontes?

Olha o homem interferindo na natureza!

Mas, quando a Prefeitura tiver que cortar estas árvores para alargar a reta que nos leva ao Norte e ao Cemitério, ou fazer uma obra qualquer, a Prefeitura terá que pedir licença para a Floram, um órgão da Prefeitura.

Pode?

Que coisa engraçada.

O texto ficou longo.”

abs, Paulo Brito

CORREÇÃO DAS CINCO DA TARDE

“Acho que o alemão anda me pegando e troquei os nomes de Tia Noca por Tia Lica e Ladeira do seu Zé Vicente por Ladeira do seu Carlos.”

Bloguices

Horário reservado…

Este blog tá que nem aquele horário de propaganda política do partido nanico que não conseguiu  entregar os programas. Sem ter o que mostrar, fica o sujeito chato, da justiça eleitoral, informando que o espaço está reservado para a propaganda política obrigatória.

Nanico e atrapalhado, pulando de um lado pro outro feito milho de pipoca na chapa do fogão, reconheço que tenho custado um pouco mais que o costume, para entregar o programa obrigatório desse nosso horário eleitoral.

Junte-se aos quefazeres e atribulações dessa vida de frila o desencanto com o momento político que vivemos e pronto: fica o blog abandonado, criando mofo.

Dizer o quê, disso que estão fazendo os principais candidatos? A Ideli desistiu de ser candidata a governadora de SC e parece que resolveu usar todo seu tempo para ajudar a campanha da companheira Dilma. Se a eleição da afilhada do homem estivesse enfrentando alguma dificuldade, até se poderia entender tamanho desprendimento. Mas na atual conjuntura não tem explicação. Como também não tem explicação o plágio do quadro do papagaio e a imitação da perua plastificada das manhãs globais. Será que Ideli quer que a gente a compare com a Ana Maria Braga? Ou pretende mostrar que, tal como aquela outra perua petista, a Marta Suplicy, também pode ser apresentadora de TV?

Qualquer que seja a explicação, a constatação é uma só: ela desistiu de ser candidata a governadora.

O Colombo, que é um bom rapaz, bem intencionado, está metido com uma turma que vou te contar. O PSDB, magoado porque o Pavan deu um mau passo no passado (renunciou ao Senado confiando na palavra do LHS e do PMDB, kkkk), desistiu de fazer campanha para o Serra, só pra não ter que apoiar o Colombo. O PMDBdoB tá com a Dilma, ou melhor tá com quem tem mais chances de se eleger, e aqui no estado morre de vontade de se abraçar com a Ideli, mas tá sem jeito porque ela, como já vimos, desistiu de ser governadora e quer ser só apresentadora de TV. E aí, o PMDBdoB faz doce, pra tentar tirar, do Colombo, tudo o que for possível em troca da tal “governabilidade”.

A tia Ângela tenta correr por fora. Mas escolheu, para vice, uma poita. O Maneca Dias é uma espécie de âncora, firmemente presa ao lodo do fundo do mangue das composições politicas (se a imagem pareceu muito forte e ofensiva não tem problema, eu troco: firmemente presa às cristalinas areias do oportunismo). Não tem como ir muito rápido, nem muito longe, tendo que carregar um peso desses. No fundo, o PDT do Maneca sabe que seria melhor estar junto com a Ideli. Principalmente porque, com o PMDB agarrado à Dilma, as chances de sobrar alguma boquinha no governo federal pros outros partidos são menores. E talvez até tenha que pagar algum pedágio. Mas tudo bem, o PP também faz parte da base de apoio do lulismo e com certeza, seja qual for o resultado estadual, o Maneca não ficará ao desabrigo.

E se por acaso a tia mantiver a liderança e acabar indo para o segundo turno ou mesmo pelando a coruja no primeiro, o Maneca ficará insuportável: vai querer que a gente acredite que ela só chegou aonde chegou por causa dele e de seu estupendo partido, com seus milhares de militantes aguerridos. E vai enfiar a mulher dele, a DalvaDias, irmã do Walmor de Luca, de novo em alguma secretaria, para terror e desgraça dos servidores estaduais de carreira que não conseguirem transferência rapidinho.

Portanto, a coisa não está fácil. E se a gente começar a pensar em quem vai votar para senador, deputado federal e estadual, aí mesmo é que dá vontade de comprar uma passagem só de ida.

Mas tudo bem. Assim que o nevoeiro diminuir talvez eu consiga ânimo pra voltar a entregar a tempo os programinhas eleitorais deste horário obrigatório aqui.

Caderno de Domingo

Caminhadinha em Jurerê

Restinga: meio de campo entre o mar e a terra

Restinga e sua vegetação: meio de campo entre o mar e a terra

Nossos antepassados e até mesmo muita gente da nossa geração, acredita que mato é sinônimo de sujeira. Em várias partes do país, um “campo limpo” significa uma área sem aqueles estorvos do tipo árvores, arbustos, vegetação rasteira. Talvez seja uma herança do sentimento dos pioneiros, que eram depositados, pelos programas de colonização, em matagais virgens. Ali, para sobreviver, era preciso “limpar” uma área. Para fazer a casa, para plantar alguma coisa, para proteger-se dos animais e dos “bugres” (denominação genérica e não raro pejorativa, dos nativos, os “indígenas”). E isso de que lugar bom não podia ter muita vegetação, acabou se instalando profundamente na cultura brasileira.

No litoral não foi diferente. As restingas, áreas muito estranhas, com uma vegetação “anfíbia”, que sobrevive à areia, aos ventos e ao salitre, sempre foram tratadas como estorvo. E ninguém achava ruim “limpar” aquele mato, para demarcar, com muros, casas e outros sinais ostensivos de ocupação humana, os tais “terrenos de marinha”.

O mar, ao longo dos anos, tem tentado mostrar, aos humanos, que o litoral não pode ser configurado da forma que qualquer um bem entender. Manter muros à beira-mar, sabem os invasores das praias, é tarefa complicada. As ondas insistem em solapar os alicerces, abalar o equilíbrio das toneladas de pedras e, irritadas com os obstáculos, alteram a deposição e a retirada de areia, cavando ora num lugar, ora no outro.

A natureza tinha criado a restinga, com suas peculiaridades e sua vegetação própria, para servir de meio de campo entre o instável e temperamental oceano e a não menos instável terra “firme”. Entre a areia e a argila, a restinga. Como é esquisita e estranha, a restinga vive em intermináveis discussões com o mar. Ora se encolhe, ora se expande, ora se abraçam e florescem, espumas, ondas e flores áridas e salgadas, ora parece que vai desaparecer sob a chicotada das ressacas.

Meter-se nesse diálogo de marido e mulher, é idiotice. Tentar, com alguns milhares de cabeças de pedra tentar substituir um sistema que a natureza aperfeiçoou em bilhões de anos, é estupidez. Mas foi isso que sempre foi feito no litoral, por gente que não sabia muito bem em que mundo vivia nem tinha estudo suficiente para entender as coisas mais complexas.

No sábado dei uma caminhadinha na praia de Jurerê e tirei umas fotinhas, que trago para ilustrar essas caraminholas dominicais que me ocorreram a partir do que vi por lá.

O tipo do muro imbecil

O tipo do muro imbecil

Depois se queixam que "a praia tá desaparecendo"

Depois se queixam que "a praia tá desaparecendo"

O mar até tenta consertar, mas não dá conta de tudo...

O mar até tenta consertar as bobagens dos humanos, mas não dá conta de tudo...

Aqui e ali, vê-se algum esforço para recuperar a restinga ou parte dela

Aqui e ali, vê-se algum esforço para recuperar a restinga ou parte dela

Cá entre nós, 5 mil m2 é pouco, pro tamanho do nosso litoral. Mas

Cá entre nós, 5 mil m2 é pouco, pro tamanho do nosso litoral. Mas já é alguma coisa.

E agora, pra terminar, um filminho mais ou menos com as mesmas imagens acima, só que com movimento e música. Não que acrescente muita coisa, mas é que eu gosto de mexer na maquininha de editar filminhos e estou tentando aprender essa nova linguagem. Bom final de domingo pra todos.

EXTRA! EXTRA!

Diga 33!

Não me perguntem como, mas hoje estamos, Lúcia e eu, completando 33 anos de casados. Se levarmos em conta que só casamos depois de sete anos de namoro, já lá se vai uma vida. E o mais engraçado, ou mais curioso, é que está tudo bem. A vida está boa, a gente se dá legal e parece até que fomos feitos um para o outro. Mas eu sou suspeito pra falar, porque essas coisas não acontecem do nada. Nada cai do céu e nada é fácil. A gente constrói uma relação assim. Por trás desse pacato casal que ainda sente prazer em estar junto, tem muito trabalho. Tanto para entender um ao outro, como para adaptar-se e fazer-se entender. Tem sido muito bom. E estamos muito contentes não só conosco, mas principalmente com nossas obras de arte, os filhos, que foram bem feitinhos, criados com esmero e agora, em vôo solo, estão soltos no mundo, reproduzindo-se.

Taí umas fotinhas, pra mostrar que o tempo passa, o tempo voa, mas a gente continua numa boa.

1977, foto Graça Seligman; 2002, foto André Valente

1977, foto Graça Seligman; 2002, foto André Valente

O convite do casamento foi feito na rotativa do jornal O Estado e era no tamanho do jornal standard. No verso, tinha, enorme, essa foto aí da esquerda, do casalinho de noivos. Nas bodas de prata, em 2002, a gente fez mais ou menos a mesma pose, pra colocar no convite e o resultado foi essa foto da direita.

O tijolão-convite em papel jornal

O tijolão-convite em papel jornal

O casamento foi na igreja de Santo Antônio de Lisboa, que estava lotada de parentes e amigos, decerto curiosos para saber que tipo de cerimônia poderia ter depois de um convite tão estapafúrdio. Mas foi tudo mais ou menos normal, exceto pelo fato dos celebrantes terem sido, como manda o rito católico, os noivos. O padre Edgard e o diácono Ademi foram apenas testemunhas. Como resultado, Lúcia e eu falamos o tempo todo, de frente para o público e só em alguns momentos viramos para o altar. Quem esteve lá pode contar melhor como foi. Lúcia e eu estávamos meio nervosos, hehehe. Ah, a lua de mel foi em Montevideo. Como estava frio, nem deu pra conhecer direito a cidade, ficávamos do hotel para o restaurante (Pollo Dorado), de volta para o hotel, daí para a confeitaria para o chá da tarde (Oro del Rhin) e corríamos para o hotel. Só.

O fotógrafo do casamento foi o Lourival Bento. Por onde andará?

O fotógrafo foi o Lourival Bento. Por onde andará?

Início da cerimônia, com as caras ainda muito sérias

As caras sérias na hora da consagração

Eleições 2010

Afinal, vida inteligente na oposição!

A campanha tava muito chata com esse “já ganhou” dos lulistas e com as reiteradas mancadas da oposição, que deixava passar bola quicando após bola quicando, sem chutar. Quando chutava, nem grama arrancava. Até que hoje apareceu (vi no blog do Noblat), um filminho do YouTube que dá uma boa canelada na candidata governista. Parece que o jogo, finalmente, começou. Bom, quer dizer, eles ainda não levaram para os programas de TV do Serra essa ousadia, mas já é alguma coisa.

Olha só:

Eleições 2010

Olha o valhacouto aí, gente! Corram aos dicionários!

Trago pra cá mais uma produção alheia. O nosso velho amigo Emanuel, tomando sol à beira da lagoa do Abaeté e colocando em prática os ensinamentos da “Cartilha Dorival Caymmi de Desaceleração”, deixou de lado por uns momentos o dolce far niente baiano e ligou o modo sarcástico/irônico no volume máximo. Pariu uma bela peça, bem apropriada para essa época eleitoral.

VALHACOUTO DE OLIGARCAS

por Emanuel Medeiros Vieira

“Refúgio de velhacos?

Foi assim que o Dr. Plínio de Arruda Sampaio classificou o Senado brasileiro, defendendo a sua extinção. Deve ser a idade, Dr. Plínio.

Que exagero!

Como defender o fim de uma instituição tão nobre, ainda mais nestes alegres trópicos?

Que maldade!

Casa revisora, habitada por seres tão impolutos e iluminados como Mão Santa, José Sarney, Romero Jucá, Fernando Collor, Renan Calheiros, Gim Argello (também conhecido em Brasília como “Jim das Terras” — suplente do humanista e ilibado Joaquim Roriz, que renunciou ao mandato), e tantos outros.

Ah, e o Romeu Tuma (que quando estive “hospedado por meses no DOPS, era o diretor do órgão), e senador da base aliada e fraternal amigo do Lula.

Quem também andou por lá?

José Roberto Arruda. Outro renunciante!

(Um conhecido, encontrou no plenário do Senado seu compungido discurso de renúncia onde havia trechos sublinhados por marqueteiros, com caneta marca-texto, determinando, como numa peça teatral: “Hora de chorar!”. E o Arruda chorou! E prometeu nunca mais “errar”.)

Insisto: refúgio de velhacos? Valhacouto de oligarcas?

Que injusta crueldade, dr. Plínio!

O senhor deveria medir suas perversas palavras.

Iria citar também certa senadora, que representa o meu amado estado natal, mas o editor do blog poderia reclamar: “Chega! Parece obsessão!”

Não, amigo. Como muito bem definiste um dia, é apenas uma “musa inspiradora”.

Claro: com gente assim tão nobre nunca perderei a inspiração.

Salvai-nos, Ideli!

Sinecuras, trapaças, empreguismo, contratos fraudados, reduto de mitômanos e de escândalos?

Dr. Plínio: onde o senhor quer chegar?

Escândalos?

Isso não é nada e não manchará a reputação de Casa tão ilibada — e TÃO TOLERANTE ! –, que teve como membro o senhor Jáder Barbalho, o generoso e tão idôneo Jáder, do Pará, uma espécie de Holanda dos trópicos, sem concentração de renda, sem doenças. Um paraíso!

(Ele quer voltar para lá. O Senado talvez volte a recebê-lo.)

Por definição, o Senado é a Casa dos mais experientes, dos “melhores” e mais sábios. Deve zelar pelo equilíbrio da Federação.

E como zela!

E, entre os seus pares, há um imortal da Academia Brasileira de Letras, como José Sarney, com sua sapiência, seu espírito humanista e tão familia (pouca gente ama tanto a família como ele), tão anti-oligárquico!

(E há outro. Lembram-se? Cria do Geisel, católico fervoroso. Não direi o nome.)

Sem ironia (é verdade) tem um padrão de conduta mais elevado do que a maioria.

Sim, Dr, Plínio. Não incorra em injustiças!

Velhacos? Patifes? Sacripantas? Pústulas morais? Adeptos da mendacidade?

Em que lugar? Onde o senhor viu isso?

Contenha-se, Dr. Plínio!”

Salvador, agosto de 2010

Jornalismo

Prefeitura diz que DC mentiu

No último dia 14 postei aqui um comentário (“Mais R$ 4 milhões pro buraco”) a respeito do custo exorbitante do trapiche que a prefeitura vai construir na beira-mar norte, feito integralmente sobre uma notícia publicada dia 11/8 no DC online (leia aqui).

Naquela ocasião se informava que o novo trapiche custaria R$ 4 milhões.

Pois bem, hoje o mesmo DC online publica outra nota sobre o mesmo assunto, informando que o trapiche custará R$ 1 milhão. O preço, em uma semana, baixou R$ 3 milhões. Um fato notável, que mexe com a curiosidade de todos, principalmente dos jornalistas. O que teria acontecido?

Tem, na nota de hoje, um trecho especialmente intrigante:

“Sobre o preço da obra, que teve custo divulgado na imprensa em R$ 4 milhões, o secretário diz:

— Desconhecemos a fonte da informação. Se custasse R$ 2 milhões já seria caro — sugere.”

O secretário citado é o de obras do município, Luiz Américo. Bom, como a informação de que o trapiche custaria R$ 4 milhões foi dada pelo mesmo veículo, em matéria em que o mesmo Luiz Américo aparece como fonte, surge diante de todos nós um enorme, gigantesco ponto de interrogação, integralmente iluminado por leds controlados por computador.

O DC foi desmentido pela autoridade municipal e nem se deu ao trabalho de tentar explicar aos leitores o que aconteceu. O silêncio dá a entender que foi uma barriga. Pode ter acontecido que o(a) repórter anotou 1 às pressas e depois, na redação, leu 4. Ou então a fonte realmente falou 4, mas a coisa pegou tão mal que resolveram fazer um remendo. A saída foi botar a culpa na imprensa com a conivência da… imprensa.

Um erro como esse, envolvendo dinheiro público, não poderia ser tratado dessa forma, como se os leitores fossem imbecis de memória extraordinariamente curta (afinal, entre um valor e outro passaram-se apenas sete dias). Caberia, se nos levassem a sério, alguma explicação.

Do jeito que fizeram, ficou muito feio.

Eleições 2010

A farra das pesquisas

Desde que descobriram que o resultado das pesquisas pode, de fato, direcionar a preferência do eleitor, esses instrumentos estatísticos aparentemente inofensivos passaram a ter papel destacado nas campanhas eleitorais.

Há quem assegure que existem institutos sérios e há quem garanta a exatidão do resultado a partir das amostras que, teoricamente, são calculadas com precisão científica. Tudo isso é possível e desejável. Mas quando se trata de uma disputa para assumir o governo de uma das maiores economias do mundo, também é razoável que todos ponhamos para funcionar nossos desconfiômetros. São enormes e inúmeros os interesses envolvidos.

Quem lida com estatísticas sabe como é complicado manter o rigor numa coleta de dados que envolve milhares de questionários, aplicados em poucos dias, em vários estados. Ainda mais quando o resultado pode significar desânimo entre militantes, mudança de voto de indecisos e derrota antecipada. Ou vitória. E com certeza esse clima prévio terá grave influência no resultado que será apurado na urna.

Mas, digamos que as pesquisas sejam, em sua maioria, sérias. E que a metodologia apresentada ao exame público seja realmente seguida. Mesmo assim, o eleitor precisa abrir os olhos. Tanto ao considerar o resultado divulgado pelos institutos, quanto ao ser abordado por pesquisadores.

Leiam com atenção, por favor, este relato que me foi enviado hoje por um leitor atento e preocupado, do oeste de SC, cujo nome preservo:

“Caro professor,

Venho comunicar fato ocorrido nessa manhã enquanto estava em minha residência no município de Palmitos-SC. Por volta das 8:30h recebo uma ligação em meu telefone fixo, uma “pesquisadora”, que falou apenas seu primeiro nome e solicitou o meu nome, informa ser de um tal instituto IPESPE e que gostaria de fazer uma pesquisa econômica e eleitoral comigo, via telefone. De imediato não aceitei. Como isso me preocupou, faço algumas indagações sobre tal tipo de coleta de dados.

1 – Como saberei se a pessoa que me liga realmente é do IPESPE? Qualquer um pode falar que é de um determinado instituto de pesquisa e inventar algum número de registro, como não terei como conferir o registro e nem estarei vendo seu crachá, como sei quem realmente fala comigo?

2- Como disponibilizar dados econômicos meus a um terceiro que desconheço a idoneidade e a autenticidade? Vivemos na era dos sequestros relâmpagos, falsos sequestros e tudo o mais, de forma que estaria expondo a mim e a minha família.

3- Como solicitar, via telefone, a opção eleitoral de uma pessoa? Como saberei que isso não está sendo feito por um determinado candidato para usar contra mim tal informação? Ainda mais nos pequenos municípios (a maioria em nosso estado), onde todos se conhecem.

Não compreendo como o TRE ou o TSE podem liberar tal forma de pesquisa, pois estão expondo o cidadão a situações que podem resultar em sérios riscos.”

Pode parecer esquisito, mas esse IPESPE tem mesmo pesquisas registradas no TSE para serem feitas por telefone. Só que, nas pesquisas registradas pelo IPESPE no TSE, informa-se que sua abrangência é o estado de São Paulo.

Portanto nesse caso havia mesmo muita coisa errada. O fato é que as vítimas dessas ligações impertinentes de telemarketing eleitoral invasivo têm não só o direito, mas também o dever de desconfiar. E o eleitor precisa também ser mais cauteloso, antes de seguir, feito maria vai com as outras, o que nos apresentam como tendências incontestáveis baseadas em dados “científicos”.

Bloguices

Novo cantor na praça

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